Catequistas Curiosos: redescobrindo a vocação além da especialização
Vivemos em uma era marcada pela hiperespecialização, que pode estar chegando ao fim. Desde a medicina até a tecnologia, a fragmentação do conhecimento permitiu avanços extraordinários, mas também gerou uma visão reducionista da realidade, como alertava o Papa Francisco na Laudato Si’: “Tudo está interligado”. Na Igreja, esse fenômeno não passou despercebido. A catequese, espaço vital de transmissão da fé, enfrenta hoje um paradoxo: quanto mais se busca “especializar” os catequistas, dividindo-os em “experts” de etapas sacramentais, mais se perde de vista a essência de sua vocação, ser testemunha de um encontro que transforma vidas.
A especialização, em si, não é um mal. Ela surge como resposta à complexidade do mundo moderno, mas quando aplicada sem discernimento à formação cristã, corre o risco de reduzir a catequese a uma sequência de “módulos técnicos”. Em muitas paróquias, observa-se catequistas que dominam os detalhes da Primeira Eucaristia, mas desconhecem os desafios da Crisma; outros dedicam-se aos adultos, mas não dialogam com a espiritualidade infantil. Esse modelo, embora bem-intencionado, fragmenta o kerygma, o anúncio central do Evangelho, que é único e integral.
O problema, porém, vai além da metodologia. Reflete uma mentalidade que prioriza a eficiência em detrimento da profundidade. O Documento de Aparecida (2007) já alertava: “Não podemos ser uma Igreja autorreferencial, presa em estruturas caducas”. A catequese não é uma linha de produção, mas um processo orgânico, semelhante à agricultura (cf. Mc 4,26-29). O catequista é chamado a ser “lavrador da fé”, alguém que prepara o terreno, semeia, rega e colhe, sem jamais controlar o crescimento, dom do Espírito.
Nesse contexto, precisamos urgentemente resgatar a visão de catequista como discípulo missionário, título central da exortação Evangelii Gaudium. Sua identidade não se define por um cargo ou etapa, mas por uma relação viva com Cristo, que o impulsiona a guiar outros no caminho da fé. Esse caminho não é linear: inclui crises, retomadas e reinícios, como demonstra a parábola do filho pródigo. Assim, a especialização excessiva pode criar “ilhas” de conhecimento, desconectadas da totalidade da experiência cristã.
Propomos aqui uma reflexão crítica sobre os riscos da fragmentação na catequese, convidando os catequistas a redescobrirem a curiosidade integral, sistêmica, não como mera busca por informações, mas como agente que conecta conhecimentos, informações e espiritualidade, deixando sempre se surpreender por Deus. A exemplo de Santo Agostinho, que viajou das heresias maniqueístas às profundezas da graça, o catequista deve ser peregrino, não turista. Seu papel não é entregar mapas prontos, mas caminhar junto, ajudando a decifrar os sinais do Reino na estrada.
1. A Catequese não é um Curso, mas um Caminho
A metáfora do caminho perpassa toda a Escritura: Abraão é chamado a deixar Ur; Israel peregrina pelo deserto; os discípulos de Emaús redescobrem Cristo “ao longo do caminho” (Lc 24,13-35). A catequese, portanto, não é um curso com início e fim definidos, mas uma itinerário santo e sistêmico. Quando reduzida a etapas fechadas, perde sua capacidade de gerar conversão. Um exemplo claro está na preparação para a Primeira Eucaristia: se focada apenas em memorizar orações e ritos, sem integrar a vida familiar e comunitária, corre o risco de criar “consumidores de hóstias”, não missionários em espírito e verdade.
A especialização fragmentada também ignora a pedagogia divina, que age gradualmente. No Êxodo, Deus não revelou todo o mistério do Templo desde o início; formou o povo no deserto, passo a passo. Da mesma forma, a catequese deve respeitar os tempos do catequizando. Um jovem crismado que abandona a Igreja após o sacramento muitas vezes foi vítima de uma formação que não soube vincular a Crisma à vida cotidiana ou a Crisma ao sentimento de pertencimento. O catequista especialista em uma etapa, sem visão do todo, pode ser comparado a um professor que ensina capítulos isolados de um livro, sem nunca revelar o enredo.
A solução está em resgatar a catequese mistagógica, como propõe o Diretório de Catequese (2020). Ela convida a mergulhar nos sacramentos a partir da experiência, não da explicação. Isso exige que o catequista conheça não só “sua” etapa, mas também as anteriores e posteriores. Como guia de uma trilha, ele precisa saber de onde os catequizandos vêm e para onde seguirão, criando pontes entre os sacramentos e a vida em Cristo.
2. A Curiosidade como Caminho de Encontro
Jesus nunca limitou seu ensino a um “público-alvo”. Conversou com fariseus, crianças, samaritanos e prostitutas, adaptando sua mensagem a cada coração. Essa pedagogia divina da curiosidade desafia os catequistas a saírem da zona de conforto. Ser curioso, aqui, não é acumular informações, mas cultivar o assombro diante do Mistério. Santa Teresa de Calcutá dizia: “Não somos chamados a ser bem-sucedidos, mas fiéis”. A fidelidade, porém, exige coragem de perguntar, duvidar e buscar.
A curiosidade autêntica impede que a catequese se torve repetitiva. Quantos jovens hoje rejeitam a fé por considerá-la uma lista de regras do passado? O catequista curioso, porém, apresenta o Evangelho como resposta às inquietações contemporâneas. Ele estuda não só a Bíblia, mas também a cultura, a música e os dilemas éticos de seu tempo. Um exemplo inspirador é São Paulo VI, que na Evangelii Nuntiandi (1975) incentivou a “escuta das alegrias e das esperanças” do mundo.
Além disso, a curiosidade fortalece a formação permanente. O catequista que só se atualiza em sua “área” torna-se desequilibrado, como um músico que domina um único acorde. Em contraste, aquele que estuda teologia, acompanha exegese e dialoga com outras religiões adquire linguagens múltiplas para anunciar Cristo. A curiosidade, assim, é antídoto contra o fundamentalismo e a estagnação.
3. O Risco do Catequista “Professor”
A mentalidade escolarizada é uma tentação sutil. Ao organizar a catequese em “aulas”, só que sem metas e avaliações, pode-se confundir conversão com aprovação mesmo que não tenha um exame. O catequista “professor” corre o risco de valorizar mais a ortodoxia das respostas que a autenticidade do encontro. Esse modelo pode gerar casos emblemáticos de adolescentes que decoram os Mandamentos, mas nunca compreendeu o perdão, sua fé desmorona ao cometer um erro grave, pois associara religião a desempenho.
Esse reducionismo ignora que a catequese é, antes de tudo, iniciação à vida cristã (cf. Diretório Geral para a Catequese, 1997). Iniciar não é informar, mas introduzir em uma comunidade que celebra, serve e testemunha. O catequista meramente “técnico”, torna-se um funcionário do sagrado, não um pai ou mãe na fé. Como alertava São João Crisóstomo: “Não basta ensinar Cristo; é preciso configurar-se a Ele”.
A solução passa por humanizar a catequese. Em vez de PowerPoints intermináveis, priorizar círculos de partilha, visitas aos excluídos, esquecidos ou que estão nas periferias de exclusão, ou noites de adoração. O conteúdo não é abandonado, mas situado no contexto de uma relação. Afinal, como dizia São João Paulo II: “O homem não pode viver sem amor. Ele permanece um ser incompreensível para si mesmo”.
4. Catequistas Conectores: Unindo Etapas e Pessoas
A imagem do catequista “conector” remete à figura bíblica do levita, aquele que carrega a Arca da Aliança, unindo o povo em marcha. Hoje, conectar significa integrar sacramentos, idades e realidades. Um exemplo prático: em vez de catequistas isolados para cada etapa, paróquias poderiam adotar equipes mistas, onde adultos que preparam para a Crisma dialogam com catequistas da Eucaristia, compartilhando estratégias para manter os jovens engajados.
A conexão também se dá entre fé e vida. Um catequizando desempregado não precisa apenas ouvir sobre a Providência; precisa de ajuda para escrever um currículo ou encontrar cursos. Aqui, o catequista age como a Samaritana (Jo 4), que após encontrar Jesus, tornou-se missionária em sua cidade. Não basta falar de Deus; é preciso mostrar Seu rosto na solidariedade.
Por fim, ser conector exige humildade. Ninguém é expert em tudo, mas todos podem colaborar. Plataformas digitais, por exemplo, permitem que catequistas de diferentes regiões troquem experiências. A verdadeira especialização não é vertical (profundidade em um tema), mas horizontal (capacidade de tecer redes).
Conclusão
Ao final deste ensaio, retomamos a pergunta essencial: qual é a identidade do catequista? Ele não é um funcionário sacramental, um instrutor religioso ou um voluntário de atividades paroquiais. Sua vocação, como lembra o Papa Francisco, é ser “artesão da humanidade nova”. Isso exige romper com a lógica da especialização funcionalista e abraçar uma espiritualidade da integralidade, onde conhecimento, compaixão e mistério se fundem.
A catequese do futuro, se quiser ser fiel ao Evangelho, precisará de catequistas corajosos o suficiente para não ter respostas prontas, mas sempre disponíveis a caminhar. Como Abraão, que “partiu sem saber para onde ia” (Hb 11,8), o catequista deve confiar mais no processo que no controle, mais no Espírito que em manuais. Isso não significa desprezar a formação, pelo contrário, exige estudo constante, mas subordiná-la à caridade pastoral.
Nesse sentido, a curiosidade proposta aqui não é mero método, mas virtude teologal. Ela nasce da certeza de que Deus sempre surpreende, como fez com Pedro na casa de Cornélio (At 10) ou com Paulo no caminho de Damasco. O catequista curioso é, portanto, aquele que se deixa converter a cada dia, encontrando Cristo nos marginalizados, nas perguntas difíceis e até em suas próprias limitações.
Aos que se sentem desgastados pela rotina catequética, recordemos as palavras de Santo Irineu: “A glória de Deus é o homem vivo, e a vida do homem é a visão de Deus”. A catequese não existe para encher igrejas, mas para permitir que cada pessoa contemple, em sua história, os traços do Amor divino. Essa missão não cabe em especializações, pois é tão vasta quanto o coração humano.
Que Maria, a primeira catequista, que “guardava todas as coisas no coração” (Lc 2,51), inspire-nos a sermos eternos buscadores. Afinal, como escreveu São Gregório de Nissa, “a perfeição consiste em nunca parar de crescer”. A catequese, quando vivida como jornada de curiosidade sagrada, não forma especialistas, mas santos e santos, como sabemos, são os maiores especialistas em amor.
Este texto nasceu após ouvir a palestra de Mike Bechtel, futurista-chefe da Deloitte, no South by Southwest (SXSW) 2025, em que ele declara que “o futuro pertence aos curiosos, não aos especialistas”.