Pascom: Não é necessário desaparecer para existir
A Pastoral da Comunicação (Pascom) hoje é uma pastoral essencial da Igreja Católica no mundo contemporâneo e cada vez mais digital, responsável por traduzir a mensagem viva e profética da igreja, através das linguagens e tecnologias de cada tempo. Seu papel, no entanto, não deve se limitar à mera transmissão de conteúdo: trata-se de construir pontes entre a fé e a cultura, entre o sagrado e o cotidiano. Nos últimos anos, porém, diante da revolução digital, muitas paróquias e comunidades têm concentrado esforços quase exclusivamente em estratégias virtuais, como redes sociais, transmissões ao vivo e aplicativos, na tentativa de alcançar as novas gerações. Nesse movimento, uma parcela significativa da comunidade eclesial vem sendo negligenciada: aqueles que ainda habitam o mundo analógico, idosos, pessoas sem acesso à internet, os que fogem da solidão, os que precisam se conectar com outras pessoas ou simplesmente todos os que são resistentes à imersão digital.
Ao priorizar o virtual como único caminho, a Pascom corre o risco de fragmentar o corpo eclesial, substituindo o encontro concreto pelo engajamento superficial e excluindo quem não domina códigos digitais. Este ensaio propõe uma reflexão crítica sobre essa tendência, defendendo que a comunicação pastoral só cumpre sua missão quando integra, sem hierarquias, o analógico e o digital. Não se trata de abandonar a inovação, mas de reconhecer que a tecnologia não substitui a proximidade física, o toque de um folheto nas mãos, a voz ao telefone ou o diálogo em grupos presenciais. A verdadeira conexão, aquela que gera comunidade, nasce da capacidade de unir gerações, linguagens e realidades distintas, sem que uma precise desaparecer para que a outra exista.
1. Pascom: Memória e Missão
A Pascom não é e não deve ser transformado em um departamento de marketing eclesiástico, mas uma pastoral com raízes profundas na tradição cristã de comunicação. Desde a oralidade e os manuscritos medievais até os púlpitos das catedrais, a Igreja sempre utilizou os meios disponíveis em cada época para anunciar o Evangelho. O Concílio Vaticano II, com o decreto Inter Mirifica (1963), já orientava sobre o uso crítico e ético dos meios de comunicação, enfatizando seu potencial para o bem comum. No Brasil, a Pascom ganhou força nas décadas de 1980 e 1990, impulsionada pelas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e por iniciativas como rádios comunitárias, jornais paroquiais e boletins impressos. Essas ferramentas, simples mas eficazes, garantiam que a informação circulasse mesmo em regiões sem infraestrutura tecnológica, fortalecendo laços locais.
A missão da Pascom, portanto, sempre foi mediar relações, não apenas transmitir mensagens. Seu erro atual reside em confundir “comunicação” com “presença digital”, como se bastasse estar online para cumprir seu papel. Documentos como A Igreja e a Internet (2002), do Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais, alertam: a tecnologia deve servir à comunhão, não ao isolamento. Quando uma paróquia abandona o mural de avisos físico para publicar tudo no Instagram, ou substitui reuniões presenciais por grupos de WhatsApp, ela pressupõe que todos migraram para o digital, uma ilusão perigosa.
2. A Exclusão Analógica: Quando o Digital Divide
Segundo dados do IBGE (2022), 20% dos brasileiros acima de 60 anos nunca acessaram a internet. Nas periferias urbanas e zonas rurais, a conexão de qualidade ainda é privilégio. Mesmo entre os que possuem smartphones, muitos não dominam funcionalidades básicas: enviar arquivos, preencher formulários online ou acompanhar transmissões ao vivo. Para essas pessoas, a Pascom digital é uma realidade inalcançável. O resultado? Sentem-se excluídas da vida paroquial, como se a Igreja tivesse virado um clube para jovens “conectados”.
O fenômeno é agravado pela lógica algorítmica das redes sociais, que privilegiam conteúdos rápidos, visualmente atraentes e emocionalmente envolventes. Posts sobre retiros ou campanhas solidárias competem com memes e influenciadores, muitas vezes perdendo espaço. Além disso, a comunicação digital tende à fragmentação: cada usuário consome o que quer, quando quer, diluindo o senso de coletividade. Enquanto isso, idosos que antes liam o boletim dominical em família agora se veem sem referências, e trabalhadores sem tempo para navegar em feeds online perdem informações sobre horários de missas ou eventos.
A exclusão não é apenas tecnológica, mas afetiva. Quando uma avó pede ajuda ao neto para ver uma live da paróquia, ela não busca apenas instruções técnicas; deseja compartilhar um momento de fé. Ao reduzir a Pascom ao virtual, a Igreja perde oportunidades de fortalecer vínculos intergeracionais e reforçar que a comunidade é, antes de tudo, um espaço de acolhida mútua.
3. Reumanizar a Comunicação: O Analógico como Resistência
O Papa Francisco, em Fratelli Tutti (2020), critica a “globalização da indiferença” e defende uma “cultura do encontro”. Essa cultura não nasce de likes, mas de gestos concretos: visitas aos enfermos, círculos de estudo bíblico, festas juninas comunitárias. A comunicação pastoral, para ser fiel a esse chamado, precisa resgatar meios que favoreçam a presença integral e sistêmica entre corpo, mente e espírito.
O analógico tem vantagens únicas:
- Materialidade: Um cartaz fixado na igreja ou um folheto entregue após a missa cria uma presença tangível da comunidade na vida das pessoas.
- Acessibilidade: Rádios comunitárias, ainda populares no interior, alcançam quem está cozinhando, trabalhando no campo ou sem recursos para dados móveis.
- Ritualidade: A leitura coletiva do boletim no salão paroquial, seguida de café e conversa, transforma informação em experiência compartilhada.
Em São Paulo, a Paróquia Santa Cruz mantém um “Varal Solidário”: além de publicar eventos online, pendura convites coloridos em um varal na praça ao lado da igreja. Moradores passam, pegam os papéis e, muitas vezes, param para conversar. Promover por exemplo “roteiros de fé” aonde cidades com grande fluxo de turistas visitam não só as grandes igrejas ou monumentos, mas também idosos, como pessoas em situação de vulnerabilidade social em abrigos, instituições comunitárias ou de terceiro setor, todas as visitas mobilizadas pela pascom que promove não só o contato pessoal como também pode produzir conteúdo em redes sociais, podcasts e outros meios virtuais. Essas iniciativas mostram que o analógico e o digital podem coexistir, enriquecendo-se mutuamente.
Todos sabemos que para combater a solidão, é essencial focarmos em criar conexões autênticas. Não se trata apenas de estar presente fisicamente ou de aumentar o número de interações online, mas de investir na qualidade das relações. O Papa Francisco, em Fratelli Tutti, lembra que a cultura do encontro exige gestos que transcendam a superficialidade. Algumas pequenas ações podem ajudar a restaurar esses vínculos:
- Reduzir o uso do celular: Em vez de distrair-se com o telefone durante uma conversa, o simples ato de estar presente e dar atenção plena ao outro pode fazer toda a diferença. Em grupos de oração ou reuniões pastorais, incentivar momentos de “desconexão digital” abre espaço para escuta ativa e empatia.
- Mostrar interesse genuíno pelos outros: Perguntar de verdade como a pessoa está, sem pressa ou distrações, demonstra que a comunidade se importa. Na Paróquia São José, em Curitiba, voluntários realizam visitas domiciliares sem agendas rígidas, permitindo que idosos compartilhem histórias e preocupações.
- Investir em conversas significativas: Ao invés de interações rápidas e superficiais, a Pascom pode promover círculos de diálogo em que temas como fé, esperança e solidariedade sejam discutidos com profundidade. Em Porto Alegre, um projeto chamado “Café com Prosa” reúne jovens e idosos mensalmente para trocar experiências de vida, usando perguntas guia que estimulam a reflexão mútua.
Essas práticas reforçam que a comunicação pastoral não é sobre quantidade de canais, mas sobre a qualidade da presença. Quando uma avó recebe uma ligação telefônica da catequista perguntando sobre seu dia, ou quando um jovem deixa o celular de lado para ajudar a organizar um bazar comunitário, a Igreja se torna espaço de acolhida integral. O analógico, nesse sentido, não é nostalgia, é resistência contra a imposição do imediatismo.
4. Estratégias para uma Pascom Inclusiva
Para servir a toda a comunidade, a Pascom precisa adotar um modelo híbrido, onde cada meio seja escolhido conforme o público e o objetivo. Algumas sugestões práticas:
- Mapeamento Comunitário: Antes de lançar campanhas, pesquisar quantos paroquianos têm acesso à internet, quais preferem comunicação oral ou escrita e quais atividades presenciais são valorizadas.
- Canais Multiformato: Todo conteúdo digital deve ter versão analógica. Exemplo: o sermão dominical é transmitido ao vivo (YouTube), gravado em CD para idosos e resumido em um jornal mensal.
- Intermediação Geracional: Envolver jovens em tarefas de divulgação analógica (ex.: distribuir convites impressos) e idosos em projetos digitais (ex.: contar histórias para posts no Facebook).
- Formação Continuada: Oficinas para leigos sobre desde como usar email até como redigir cartas afetivas para visitas pastorais.
A Paróquia Nossa Senhora Aparecida, em Goiânia, criou um “Disque-Pascom”: um número de telefone fixo onde paroquianos ouvem gravações com avisos e podem deixar recados. Já a Arquidiocese de Belo Horizonte lançou um projeto de “correspondentes comunitários”: voluntários visitam casas para coletar notícias locais, que viram matérias no site e em um mural físico.
5. Tecnologia a Serviço do Encontro
A crítica aqui não é ao digital, mas à sua fetichização. Plataformas como Zoom podem aproximar quem está geograficamente distante, mas só fazem sentido se integradas a um projeto maior de comunidade. Transmissões de missas, por exemplo, devem incluir momentos de interação (ex.: pedidos de oração via comentários) e ser complementadas por visitas aos que estão online por impossibilidade física.
Apps de espiritualidade são úteis, mas não substituem a catequese presencial. O desafio é usar a tecnologia para aprofundar, não substituir, os laços. Em Portugal, a Pascom da Diocese do Porto criou “cafés teológicos”: encontros presenciais discutem temas levantados em posts do Instagram, usando as redes como provocação, não como fim.
Conclusão
A Pascom enfrenta um dilema crucial: como ser sinal de unidade em um mundo fragmentado? A resposta está em rejeitar falsas dicotomias. Não se trata de escolher entre o virtual e o analógico, mas de reconhecer que ambos são expressões da mesma comunidade, cada qual com seu valor.
Ao ignorar os não digitais, a Igreja enfraquece sua natureza inclusiva. A comunicação pastoral só cumpre sua missão quando consegue ser farol para o idoso que guarda o terço no bolso e para o jovem que tweeta versículos bíblicos; quando une o grupo de oração no WhatsApp e o coral que ensaia toda quarta-feira no salão; quando transforma likes em abraços e hashtags em diálogos reais.
“Pascom: Não é necessário desaparecer para existir” é um convite à criatividade pastoral. Que as paróquias resgatem o mimeógrafo e abracem o Instagram, não como rivais, mas como aliados na construção do Reino. Pois, no fim, o que importa não é o meio, mas o encontro, e é nisso que a Igreja sempre foi especialista: em fazer do simples pão partido uma conexão eterna.