A tragédia do Césio-137 em Goiânia é um dos maiores acidentes radiológicos da história, mas a forma como costuma ser contada carrega um equívoco comum: não começou em 13 de setembro de 1987.
Na tarde de 29 de setembro daquele ano, o físico Walter Mendes Ferreira acionou um cintilômetro no pátio da Vigilância Sanitária. A agulha disparou. Em poucas horas, um surto misterioso revelou algo muito maior — e muito mais antigo.
O que torna o caso singular é sua natureza silenciosa: ao contrário de Chernobyl, não houve explosão nem nuvem visível. O perigo veio disfarçado em um pó de brilho azul, sem cheiro e sem dor imediata. Essa aparência sedutora permitiu que a contaminação se espalhasse por ruas, casas e corpos durante dezesseis dias.
Mas o estopim havia sido aceso antes. Em 1985, o Instituto Goiano de Radioterapia mudou de endereço e deixou para trás, em um prédio abandonado, um equipamento de teleterapia. Dentro dele, 19,26 gramas de Césio-137 puro — atividade de 50,9 TBq, energia suficiente para matar. E o Cloreto de Césio, solúvel como sal, tornava o risco ainda maior.
Em setembro de 1987, catadores de sucata romperam a blindagem do equipamento. O pó espalhou-se. Levado a um ferro-velho, fascinou Devair Alves Ferreira pelo brilho azul noturno. A “pedra brilhante” foi exibida, tocada, distribuída. Leide das Neves Ferreira, seis anos, ingeriu o material ao levar as mãos à boca.
Os primeiros sintomas — náuseas, vômitos, tontura — foram tratados como viroses. O erro permitiu que a contaminação avançasse em silêncio. Até que Maria Gabriela Ferreira, desconfiada, levou a peça à Vigilância Sanitária. A medição de Walter Mendes confirmou a radiação.
Ao final, 249 contaminados, 20 casos graves e quatro mortes, incluindo a de Leide. Foram 3.500 metros cúbicos de rejeitos. Mais que um acidente, o caso do Césio-137 é uma sequência de omissões: abandono, negligência, desinformação. Para compreendê-lo, é preciso voltar a dezembro de 1985.

1985: O Abandono Institucional que Plantou a Tragédia
A origem do maior acidente radiológico urbano do mundo não está numa explosão, mas num labirinto jurídico somado a uma omissão burocrática.
Em dezembro de 1985, o Instituto Goiano de Radioterapia mudou-se para novas instalações na Rua 1-A, nº 305. O aparelho de Césio-137, modelo Cesapan F-3000, ficou para trás, na antiga sede da Avenida Paranaíba. A desativação da fonte nunca foi comunicada à CNEN, como exigia a lei. Dentro dele, 50,9 terabecqueréis de radiação — sem controle, sem vigilância.
O imóvel começou então uma peregrinação silenciosa. Pertencia à Conferência de São Vicente de Paula (Santa Casa), que o vendeu ao nstituto de Previdência e Assistência dos Servidores do Estado de Goiás (IPASGO) em 1984. O IPASGO queria construir um hospital, mas o IGR ainda ocupava o prédio com contrato vencido. A ação de despejo tramitou anos. Enquanto isso, o prédio foi passando de mão em mão: o ex-proprietário Amaurillo Monteiro de Oliveira enviou funcionários para retirar telhas, janelas e portas. O que restou foi uma carcaça aberta, sem vigilância.
Em abril de 1987, a Justiça deu a posse ao IPASGO. Oficiais de justiça entraram e lavraram um auto: imóvel “abandonado, sem nenhum bem”. O que não viram — escondida atrás de uma porta de metal, no fundo de um corredor — era a casamata com a cápsula de Césio-137.
Ali, vendido de um a outro, esquecido por todos, o perigo esperou. Por mais cinco meses.



Um Bairro Popular, uma Cidade Informal
O Setor Aeroporto, naquele setembro de 1987, era o retrato de uma Goiânia que crescia mais rápido que sua capacidade de organização. A expansão urbana avançava sobre um território onde leis e fiscalização não acompanhavam a ocupação. Muitos lotes tinham donos ausentes, aguardando valorização — enquanto, na prática, eram ocupados por uma colcha de retalhos de oficinas improvisadas e residências humildes.
Ali, moradia e trabalho se confundiam. O ferro-velho de Devair não era um negócio formalizado, mas um espaço nos fundos de casa, onde a família triava sucata para sobreviver. Na casa de Roberto, na Rua 57, puxadinhos e barracões abrigavam múltiplas famílias no mesmo terreno — sem contrato, sem registro, sem proteção jurídica. Eram pessoas que viviam fora da cidade formal, mas dentro da cidade real.
Somava-se a isso um analfabetismo mais profundo que o da leitura: técnico e informacional. Ninguém ali tinha repertório para reconhecer o símbolo de radiação ou suspeitar que um objeto hospitalar pudesse representar perigo. Diante disso, o comportamento não foi irracional — foi coerente. Num ambiente onde o valor se mede pela utilidade imediata, chumbo vira dinheiro, e um pó brilhante parece raro ou valioso.
A informalidade urbana não causou o acidente — a causa foi o abandono institucional do IGR e a falha de controle dos órgãos competentes. Mas ela funcionou como vetor de amplificação. Foi ali, na ausência de informação, regulação e proteção social, que o Césio-137 encontrou condições ideais para se espalhar.
E foi essa mesma população, já exposta a múltiplas vulnerabilidades, quem pagou o preço mais alto: saúde, casas, pertences, vínculos e, por fim, o estigma. Muitos passaram a ser tratados como se fossem eles próprios a contaminação — rejeitados por uma sociedade que, até então, nunca os havia enxergado.
13SET – A Descoberta Fatal
Na manhã de domingo, 13 de setembro de 1987, os catadores Wagner Mota Pereira e Roberto dos Santos Alves entraram nas ruínas do antigo Instituto Goiano de Radioterapia. À época, foram vistos por alguns como invasores, mas, na prática, eram catadores de sucata que enxergaram naquele prédio abandonado uma oportunidade de obter algum dinheiro com a venda de metal.
No interior do imóvel, depararam-se com um equipamento pesado e complexo: uma unidade de teleterapia. Sem conhecimento técnico sobre sua função, passaram a desmontá-lo utilizando ferramentas simples. Conseguiram remover o conjunto giratório — justamente a parte que continha a fonte radioativa — e o transportaram em um carrinho de mão até a casa de Roberto, na Rua 57, a cerca de 850 metros de distância.

É importante observar que, nesse momento, a cápsula de Césio-137 ainda permanecia íntegra dentro de sua blindagem de chumbo e aço. Nenhuma evidência de contaminação foi identificada posteriormente nas instalações do antigo instituto, o que indica que o material radioativo ainda não havia sido liberado no ambiente.
No quintal da casa de Roberto, sob uma mangueira, os dois começaram a desmontar a peça. Usando chaves de fenda e marretas, tentavam separar o chumbo — que acreditavam ser valioso — do restante da estrutura. A tarefa era árdua. Em algum momento durante esse processo, Wagner conseguiu perfurar a janela de 1 mm da cápsula de aço inoxidável. Ele enfiou uma chave de fenda e retirou uma pequena quantidade de um pó escuro. Pensando que pudesse ser pólvora, tentou ateá-lo — sem sucesso.

Horas depois, Wagner começou a sentir náuseas e vômitos. Roberto também apresentou sintomas semelhantes. Ambos atribuíram o mal-estar a algo que haviam comido. Não havia ferimentos visíveis, apenas uma sensação de tontura e um inchaço discreto na mão de Wagner — os primeiros sinais silenciosos da Síndrome Aguda da Radiação (SAR) causada pela exposição ao feixe direto de radiação gama enquanto manipulavam a peça .
O que eles não sabiam — e não poderiam imaginar — é que o brilho azul intenso que emanava do pó no escuro, fenômeno que só seria notado dias depois, era o prenúncio de uma tragédia que se desenrolaria silenciosamente pelas semanas seguintes.


“Comecei a passar mal, vomitar e minha mão ficou ferida. Achei que era alguma coisa que eu tinha comido. Depois, quando vi aquele pó brilhando, pensei que fosse pólvora, tentei acender, mas não pegou fogo.” Wagner Mota Pereira
14SET – O Agravamento Silencioso
Na segunda-feira, 14 de setembro, o quadro clínico de Wagner Mota Pereira se agravou. A diarreia somou-se aos vômitos e à tontura do dia anterior. Sua mão esquerda, que havia segurado a peça sobre a abertura do feixe de radiação enquanto tentavam desmontá-la, começou a inchar de forma visível — um edema compatível com queimadura actínica aguda.
Apesar da intensidade dos sintomas, a causa permanecia oculta. Wagner procurou assistência médica, mas recebeu o mesmo diagnóstico que seria repetido nos dias seguintes: reação alérgica ou intoxicação alimentar. Orientado a repousar, voltou para casa, onde permaneceria ao longo da semana sentindo-se progressivamente pior, sem condições de trabalhar.
Enquanto o corpo de Wagner travava uma batalha invisível contra a radiação, a peça contaminada permanecia no quintal da casa de Roberto dos Santos Alves, na Rua 57. Ainda não havia sido vendida. Ficaria ali por mais quatro dias, sob uma mangueira, enquanto os dois tentavam, de forma intermitente e sem sucesso, extrair o chumbo do conjunto giratório.
Há um detalhe técnico relevante, descrito em relatórios da Agência Internacional de Energia Atômica. Nesse estágio, a cápsula de Césio-137 já havia sido perfurada, mas a fonte principal ainda não tinha sido completamente removida de seu invólucro. A chamada “janela” de cerca de 1 mm estava rompida, permitindo a liberação de pequenas quantidades do material radioativo, enquanto a maior parte ainda permanecia contida. A contaminação ambiental significativa ocorreria apenas nos dias seguintes, com a intensificação da desmontagem.
O processo de adoecimento já estava em curso, mas a cidade — e o país — continuavam alheios. Não havia alerta, isolamento ou suspeita. Havia apenas um homem vomitando em casa, com a mão inchada, enquanto uma cápsula de Césio-137 permanecia sob uma mangueira, aguardando ser vendida como sucata.
15SET – Diagnóstico Errado
Na terça-feira, 15 de setembro, Wagner Mota Pereira retornou ao médico. As lesões em sua mão estavam mais evidentes — o edema havia evoluído para uma inflamação visível — e os episódios de vômito persistiam, deixando-o cada vez mais fraco. O médico que o atendeu manteve o diagnóstico inicial: uma reação alérgica severa a algo que ele havia comido. A hipótese de exposição à radiação — um fenômeno completamente fora do repertório clínico de um pronto-socorro comum — não foi sequer cogitada. Wagner foi novamente mandado para casa, com recomendação de repouso absoluto. Ele ficaria de cama por quase uma semana, sem conseguir trabalhar .
Este é o ponto de virada silencioso da tragédia. Enquanto Wagner convalescia em casa, acreditando tratar-se de uma intoxicação alimentar, a peça radioativa permanecia no quintal de Roberto. Nos dias seguintes, Roberto continuou, sozinho e de forma intermitente, tentando desmontar o conjunto giratório para extrair o chumbo. Foi nesse intervalo — entre 15 e 18 de setembro — que ele conseguiu remover completamente a roda da fonte de dentro da blindagem, expondo a cápsula de Césio-137 de forma muito mais direta e perigosa .
A não identificação da causa real teve duas consequências fatais:
- Retardou qualquer resposta médica especializada. O intervalo entre a exposição inicial e o reconhecimento técnico do acidente se ampliou perigosamente.
- Permitiu que o material continuasse sendo manipulado. A peça não foi isolada; ao contrário, foi preparada para ser vendida como sucata comum.
Do lado de fora, Goiânia vivia sua rotina normal. O comércio funcionava, as escolas estavam abertas, o trânsito fluía. O acidente ainda não tinha nome, nem rosto, nem alarme. Ele crescia no silêncio de um quintal na Rua 57 e no corpo de um homem que achava ter comido algo estragado.
16SET – A Rotina que Alimentava a Tragédia
Na quarta-feira, 16 de setembro, a peça continuava no quintal da casa de Roberto dos Santos Alves, sendo tratada exatamente como o que aparentava ser: sucata. Com Wagner Mota Pereira acamado e debilitado pelos efeitos da radiação que ninguém ainda suspeitava, Roberto trabalhava sozinho na desmontagem do conjunto giratório. Seu objetivo era simples e comum a milhares de catadores Brasil afora: separar o chumbo — metal pesado e de boa venda nos ferros-velhos — do aço inoxidável que o revestia .
Munido de ferramentas improvisadas como chaves de fenda, alicates e uma marreta, Roberto seguia a lógica bruta da reciclagem: abrir, cortar, separar, aproveitar. Cada golpe de marreta sobre a blindagem, cada movimento para arrancar uma camada de metal, o expunha cada vez mais ao feixe direto de radiação gama que escapava da cápsula já perfurada. A tarefa era árdua; o chumbo não cedia facilmente. Mas nada naquela cena parecia fora do normal. Não havia fumaça, não havia cheiro, não havia dor imediata. Havia apenas um homem tentando ganhar a vida com o que considerava ser metal abandonado .
É exatamente essa rotina invisível que explica a progressão da tragédia. Enquanto Roberto martelava a blindagem no quintal, Goiânia seguia seu curso normal. O comércio abria suas portas, os ônibus circulavam lotados, as crianças iam à escola. Nenhuma autoridade foi acionada, nenhum alarme soou, nenhuma manchete foi escrita — não por negligência da imprensa, mas porque o acidente ainda não existia como fato social. Ele estava confinado a um quintal no Bairro Popular, crescendo silenciosamente dentro de uma peça de metal que, em poucos dias, seria vendida como sucata comum a um ferro-velho no Setor Aeroporto .
A contaminação ainda não havia se espalhado para além daquele quintal, mas as condições para que isso acontecesse estavam sendo meticulosamente preparadas — a golpes de marreta.
17SET – O Início da Diáspora Radioativa
Na quinta-feira, 17 de setembro, a situação na casa de Roberto dos Santos Alves, na Rua 57, atingiu um ponto de virada logístico. Com Wagner Mota Pereira debilitado — os vômitos e as lesões nas mãos já o impediam de qualquer esforço físico —, a responsabilidade sobre o destino da peça recaiu inteiramente sobre Roberto. Após dias de trabalho intermitente, ele havia conseguido separar o valioso chumbo da estrutura de aço. O material estava, aos seus olhos, pronto para ser comercializado.
Até aquele momento, o risco estava geograficamente confinado. A contaminação, ainda que severa no local onde a cápsula foi perfurada, restringia-se ao quintal e ao interior da casa de Roberto. A partir da decisão de vender a peça, esse cenário mudou radicalmente. O conjunto giratório — agora desprovido de parte de sua blindagem original — entrou na vasta e informal cadeia de circulação de sucatas, um sistema que opera sem registros, sem controles e sem qualquer visibilidade para as autoridades.
Os documentos do inquérito policial confirmam que, a partir deste dia, Roberto iniciou contatos para negociar o material. A lógica era estritamente comercial: o que tinha valor era o metal reaproveitável. O “pó brilhante” que Wagner havia retirado dias antes era, na percepção de ambos, uma curiosidade sem importância — talvez algo que pudesse ser jogado fora ou simplesmente ignorado.
Este é um dos pontos mais marcantes da cronologia: primeiro veio o dano, depois veio a compreensão. Enquanto os corpos de Wagner e Roberto sofriam os efeitos da Síndrome Aguda da Radiação sem diagnóstico, a fonte que os havia contaminado estava prestes a ser colocada em circulação como uma mercadoria comum.
O relatório da IAEA observa que, embora os principais focos de contaminação tenham se mantido dentro do perímetro urbano de Goiânia, houve deslocamentos de peças e pessoas contaminadas para municípios vizinhos, como Anápolis e a Cidade de Goiás. Esses movimentos, ainda que não tenham resultado em novos focos de alta periculosidade, obrigaram as equipes da CNEN a realizar um extenso e complexo trabalho de rastreamento para recuperar cada fragmento que havia sido vendido, trocado ou simplesmente dado de presente.
A partir deste dia 17, o Césio-137 deixou de ser um problema doméstico. Ele entrou na economia invisível da sucata e, com ela, começou sua diáspora silenciosa pela cidade.
“Parecia uma pedra preciosa. Era a coisa mais bonita que eu já tinha visto. Nunca imaginei que aquilo pudesse fazer mal.” Devair Alves Ferreira
18SET – A Luz Azul que Atraiu a Morte
O dia 18 de setembro marcou o ponto de inflexão geográfica do acidente. Com Wagner Mota Pereira acamado e sem condições de trabalhar, Roberto dos Santos Alves assumiu sozinho a negociação. Ele foi até o ferro-velho de Devair Alves Ferreira, localizado na Rua 26-A, no Setor Aeroporto, e vendeu os pedaços do conjunto giratório — já desprovidos de parte da blindagem de chumbo — como sucata comum. Para transportar o material pesado, Roberto pediu um carrinho de mão emprestado ao próprio Devair (foto abaixo antes e depois).

O acordo foi fechado ali mesmo. Roberto retornou à casa na Rua 57 com o carrinho e, com a ajuda de Geraldo Guilherme da Silva funcionário do ferro-velho, levou a peça até o estabelecimento de Devair . A partir desse momento, o material radioativo deixou o confinamento do ambiente doméstico e entrou oficialmente na cadeia comercial da sucata.
Já no ferro-velho, a peça foi colocada na parte coberta. A blindagem restante — o chumbo que ainda protegia parcialmente a fonte — passou a ser removida de forma progressiva pelos funcionários do local, interessados no valor do metal. A cada camada de chumbo retirada, a proteção diminuía e o risco de exposição à radiação gama aumentava exponencialmente.

Ainda assim, o ponto mais crítico não havia sido atingido. A ruptura completa da cápsula e a liberação massiva do pó de Césio-137 só ocorreriam três dias depois, em 21 de setembro. Até aquele momento, a fonte ainda estava parcialmente contida.
Contudo, já na noite do dia 18, surgiu o sinal mais traiçoeiro de todos. Quando Devair entrou na parte coberta do ferro velho e estando tudo escuro, notou algo extraordinário: do interior da peça emanava um intenso brilho azulado. O fenômeno — deve-se à ionização do ar (nitrogênio e oxigênio) — era hipnotizante. Para Devair, aquilo não parecia perigoso; parecia valioso, talvez uma pedra preciosa ou algo sobrenatural. Fascinado, ele pegou a cápsula e a levou para dentro de sua casa .
Esse detalhe mudou completamente a natureza do acidente. O que deveria provocar medo e afastamento gerou curiosidade e aproximação. A partir daquela noite, a cápsula brilhante passou a ser mostrada a vizinhos, parentes e conhecidos como uma atração. Começou ali, sob o encanto de uma luz azul, a fase mais letal da tragédia: a disseminação social da contaminação.
“Expostos a radiação as pessoas contaminadas vão perdendo a imunidade. As células vão enfraquecendo, arrebenta com as cadeias de DNA; cessa a produção de proteínas…” Walter Mendes Ferreira
19SET – A Cadeia Social da Contaminação
No sábado, 19 de setembro, o epicentro da tragédia se consolidou no ferro-velho de Devair Alves Ferreira, na Rua 26-A. O que antes era uma operação de desmonte de sucata transformou-se em uma exibição de curiosidades. Na noite anterior, Devair havia observado o intenso brilho azulado que emanava da cápsula no escuro. O fenômeno — causado pela fluorescência do cloreto de césio ao absorver umidade — o impressionou profundamente. Ele não viu ali um perigo, mas algo valioso, talvez uma pedra preciosa ou um objeto místico. Imediatamente, levou a cápsula para dentro de casa .
A partir da manhã de sábado, o comportamento de Devair mudou a dinâmica do acidente. Ele passou a convidar ativamente vizinhos, familiares e conhecidos para ver a “pedra brilhante”. A cápsula metálica, que ele comparava a uma “marmita” ou a um “queijo”, continha um pó fino que, sob a luz, pareciam pequenos cristais. O material passou a ser aberto, tocado e observado de perto por um número crescente de pessoas.
Entre os primeiros visitantes estavam Ernesto Fabiano e seu irmão Edson Fabiano. Foi neste dia que Devair começou a distribuir pequenos fragmentos do material. Ernesto recebeu alguns grãos — do tamanho de arroz, mas que se desmanchavam facilmente em pó — e os guardou no bolso da calça. Edson também levou uma porção para casa. Ambos, fascinados pelo brilho, esfregaram o pó na pele como se fosse purpurina de carnaval .
A esposa de Devair, Maria Gabriela Ferreira, e seu irmão, Ivo Alves Ferreira, também manusearam o material neste dia. Ernesto, particularmente interessado, raspou mais fragmentos da cápsula com uma chave de fenda, expondo-se diretamente ao feixe de radiação. A contaminação, que até então estava restrita ao objeto físico, passou a circular de mão em mão, de casa em casa.
Este é o ponto de virada epidemiológico: a contaminação deixou de ser um problema de exposição ocupacional (os catadores e funcionários) e se tornou uma cadeia social de disseminação. O ferro-velho de Devair não era mais apenas um local de trabalho; era um ponto de encontro, de admiração e de distribuição de um “presente brilhante”. A tragédia, ainda sem nome e sem diagnóstico, expandia-se silenciosamente através dos laços de amizade e parentesco.
Neste mesmo dia, os sintomas em Wagner Mota Pereira e Roberto dos Santos Alves persistiam, mas a atenção médica ainda não havia feito qualquer conexão com o material. A cidade seguia sua rotina normal, alheia ao fato de que uma cápsula de Césio-137 estava sendo manipulada como um brinquedo luminoso em um ferro-velho do Setor Aeroporto.
20SET – A Multiplicação Silenciosa dos Focos
No domingo, 20 de setembro, o ferro-velho de Devair Alves Ferreira já havia se transformado em uma espécie de atração local. A cápsula de Césio-137, agora completamente livre de sua blindagem original, repousava dentro da casa da família, na Rua 26-A. O pó brilhante, que à noite emitia uma luz azul hipnótica, continuava a ser mostrado como uma curiosidade. Não havia qualquer barreira física ou psicológica: o material era tocado, admirado e compartilhado como se fosse um enfeite exótico.
A ausência de sinais imediatos de perigo — sem calor, sem fumaça, sem cheiro — anulava qualquer instinto de autopreservação. O que hoje soa como um absurdo inacreditável era, naquele contexto de desinformação absoluta, apenas um comportamento curioso diante do desconhecido.
Neste dia, a distribuição de fragmentos se intensificou. Devair, ainda fascinado, deu pequenas porções do pó para seu irmão Ivo Alves Ferreira. Ivo, por sua vez, levou o material para sua própria casa, na Rua 6, no Setor Norte Ferroviário — um local que se tornaria o segundo grande foco de contaminação da tragédia. Lá, o pó foi colocado sobre a mesa durante as refeições .
Enquanto isso, os fragmentos que haviam sido entregues a Ernesto Fabiano no dia anterior agora estavam em sua residência na Rua 17-A. Ernesto, encantado com o brilho, não apenas guardou o pó em um criado-mudo, como também o esfregou na pele, acreditando que o efeito luminoso poderia ser transferido para o corpo. Seu irmão, Edson Fabiano, fez o mesmo em sua própria casa, espalhando o pó sobre o abdômen e os braços .
O relatório da IAEA é claro ao afirmar que, neste período, houve vários casos de pessoas passando o pó radioativo na pele, como se fosse o “glitter” usado no carnaval. Esse comportamento, movido pela mais pura ingenuidade, selou o destino de muitas das vítimas, causando queimaduras actínicas severas e, nos casos mais graves, a ingestão acidental do material.
A tragédia avançava sem oposição. A cada aperto de mão, a cada visita de cortesia, o Césio-137 migrava silenciosamente para novos lares, criando múltiplos focos de contaminação que as autoridades só conseguiram mapear duas semanas depois. Goiânia dormia tranquila em seu domingo à noite, sem saber que o “pó mágico” já havia cruzado os limites do ferro-velho e se instalado em, pelo menos, três outras residências na cidade.
21SET – A Ruptura Final e a Multiplicação dos Focos
A segunda-feira, 21 de setembro, marca o dia em que o acidente radiológico de Goiânia mudou de natureza e de escala. Até então, a cápsula de Césio-137, embora perfurada, ainda mantinha parte de sua integridade estrutural. Foi neste dia que a manipulação no ferro-velho de Devair Alves Ferreira atingiu seu ápice destrutivo.
Ernesto Fabiano, amigo de Devair, visitou o ferro-velho e, com a ajuda de uma chave de fenda, removeu pessoalmente mais fragmentos da cápsula. Eram pequenos grãos, do tamanho de arroz, que se desmanchavam facilmente em pó. Ele deu uma parte a seu irmão Edson Fabiano e levou o restante para sua casa na Rua 17-A . Foi exatamente neste ato de “generosidade” que a contaminação se disseminou para o que seria conhecido como o “foco da Casa da Fossa” .
O local ganhou movimento. A notícia do “pó brilhante” se espalhou rapidamente pela vizinhança. Pessoas que não faziam parte do círculo íntimo da família começaram a aparecer no ferro-velho, criando pretextos para ver a “pedra mágica”. O que era novidade virou atração comunitária. Ninguém queria apenas ver; todos queriam levar um pouco consigo. Fragmentos foram distribuídos como se fossem amuletos ou enfeites. Em vários casos, o pó foi esfregado diretamente na pele, como se fosse o “glitter” usado no carnaval .
É neste momento que o acidente deixa de ser um evento concentrado em um ou dois pontos e se transforma em uma cadeia ativa de disseminação social. O material saiu do ferro-velho e entrou nas casas de Ivo Alves Ferreira (Rua 6), de Ernesto e Edson Fabiano (Rua 17-A) e, através de visitas e contatos, começou a se espalhar para residências em bairros vizinhos e até em outras cidades, como Anápolis e Aparecida de Goiânia .
Os primeiros sinais clínicos coletivos:
Neste mesmo período, as pessoas mais próximas a Devair — sua esposa Maria Gabriela Ferreira procura o hospital São Lucas com quadro de vômito e diarreia e seu irmão Ivo também apresenta sintomas claros da Síndrome Aguda da Radiação: vômitos persistentes, diarreia intensa e um mal-estar generalizado. No entanto, como os casos apareciam de forma dispersa em diferentes residências e os médicos locais nunca haviam visto um quadro de radiação, os diagnósticos continuavam sendo “virose” ou “intoxicação alimentar”.
Do lado de fora, Goiânia seguia sua rotina normal. Ônibus circulavam, o comércio abria suas portas, as famílias se visitavam. E a contaminação fazia exatamente o mesmo percurso da vida normal — silenciosa, invisível e já profundamente enraizada no tecido social da cidade. Essa é a parte mais cruel da narrativa: Goiânia não parou porque ninguém sabia que precisava parar.
22SET – A Dispersão Invisível e a Segunda Onda de Material
Na terça-feira, 22 de setembro, o Césio-137 já não era mais um segredo restrito ao quintal de Roberto ou ao ferro-velho de Devair. Ele havia se fragmentado em múltiplas partículas que acompanhavam pessoas, roupas e objetos em seus deslocamentos diários pela cidade. O ferro-velho na Rua 26-A fervilhava de movimento. Já não eram apenas os parentes e amigos íntimos de Devair que apareciam para ver o “pó brilhante”. A curiosidade havia rompido o círculo familiar: trabalhadores da região, conhecidos de conhecidos e até estranhos, atraídos pelos boatos que começavam a circular, passavam pelo local. Tocavam, admiravam e, em muitos casos, levavam pequenas porções do material para mostrar em suas próprias casas.
Enquanto isso, a contaminação doméstica se aprofundava. Nas residências de Ivo Alves Ferreira (Rua 6, Norte Ferroviário) e de Ernesto Fabiano (Rua 17-A), o pó radioativo já estava incorporado à rotina. Crianças brincavam no chão onde os fragmentos haviam caído. Roupas de cama e utensílios domésticos acumulavam partículas invisíveis. Trabalhadores que haviam tido contato com o material retornavam às suas atividades normais, levando consigo — sem saber — o risco para outros ambientes, outros bairros e, eventualmente, outras cidades.
Os sintomas da Síndrome Aguda da Radiação (SAR) começavam a se manifestar em um número cada vez maior de pessoas. A esposa de Devair, Maria Gabriela Ferreira, e seu irmão Ivo já apresentavam vômitos e diarreia persistentes. A pequena Leide das Neves, de apenas 6 anos, filha de Ivo, começava a sentir os primeiros efeitos da ingestão do material que ocorrera dias antes. No entanto, como cada família procurava ajuda médica separadamente — em diferentes postos de saúde e hospitais —, os casos permaneciam desconectados no sistema de vigilância epidemiológica.
Não havia um médico que conseguisse enxergar o padrão. Não havia uma autoridade que suspeitasse de uma causa comum. O problema já tinha escala urbana e multicêntrica, mas ainda não existia como fato reconhecido. Goiânia continuava funcionando normalmente, sem saber que uma rede invisível de contaminação já se estendia por, pelo menos, quatro bairros da cidade.
23SET – A Primeira Internação e o Diagnóstico Ignorado
Na quarta-feira, 23 de setembro, exatos dez dias após a remoção do conjunto giratório do prédio abandonado do IGR, o corpo de Wagner Mota Pereira entrou em colapso . Os vômitos, que antes eram episódicos, tornaram-se intensos e persistentes. A fraqueza muscular o impedia de ficar em pé. As lesões em sua mão esquerda — que ele apoiara sobre a abertura do feixe de radiação enquanto tentava desmontar a peça — haviam evoluído para um edema severo, com sinais claros de queimadura profunda.
Sem conseguir mais permanecer em casa, Wagner foi levado às pressas e internado no Hospital Santa Rita (também referido em alguns documentos como Hospital Santa Catarina). O quadro clínico chamou a atenção da equipe médica por sua gravidade e pela rapidez com que se deteriorava. No entanto, o repertório clínico disponível naquele momento não incluía a Síndrome Aguda da Radiação (SAR). Os médicos, diante de um paciente com vômitos, diarreia e lesões cutâneas, seguiram o protocolo padrão: suspeitaram de uma doença infecciosa grave ou de uma reação alérgica severa. Wagner foi medicado para os sintomas, mas a causa real permaneceu oculta. Ele ficaria internado neste hospital por quatro dias, sem qualquer isolamento radiológico .
Enquanto Wagner agonizava no hospital sem diagnóstico, o material radioativo continuava sua trajetória de dispersão. No ferro-velho de Devair, a manipulação da cápsula prosseguia. Israel Batista dos Santos e Admilson Alves de Souza, funcionários do local, trabalhavam ativamente na remoção do chumbo restante da blindagem, expondo-se diretamente à fonte já fragmentada . Em suas casas, as famílias de Ivo e Ernesto Fabiano continuavam a apresentar sintomas semelhantes — vômitos, diarreia, mal-estar — mas cada núcleo familiar buscava atendimento em locais diferentes, impedindo que as autoridades de saúde percebessem a conexão entre os casos.
O acidente avançava mais rápido do que a capacidade do sistema de compreendê-lo. Não havia alerta público. Não havia diagnóstico. Não havia contenção. A contaminação seguia seu curso: silenciosa, dispersa e já profundamente enraizada em múltiplos pontos da cidade.
24SET – A Manifestação Visível do Dano e o Epicentro Familiar
Na quinta-feira, 24 de setembro, os efeitos cumulativos da exposição à radiação começaram a se manifestar de forma inequívoca no próprio Devair Alves Ferreira. O homem que havia se encantado com o brilho azul da cápsula agora relatava queda de cabelo acentuada, alterações na pigmentação da pele e uma incômoda perda do paladar — sinais clássicos de que a dose de radiação absorvida já atingira níveis críticos e sistêmicos.
Mas o evento mais trágico deste dia não envolveu diretamente Devair, e sim seu irmão, Ivo Alves Ferreira. Conforme os autos do Inquérito Policial, Ivo esteve no ferro-velho da Rua 26-A e recebeu de Devair uma porção dos fragmentos brilhantes. Ele os levou para sua casa — não na Rua 57, mas sim na Rua 6, Quadra Q, Lote 18, no Setor Norte Ferroviário — onde residia com sua esposa, Lourdes das Neves Ferreira, e seus filhos .
É importante esclarecer aqui um ponto cronológico crucial, baseado no relatório da IAEA: a ingestão fatal do Césio-137 pela menina Leide das Neves Ferreira, de 6 anos, ocorreu provavelmente no próprio dia 24 ou nos dias imediatamente anteriores, e não neste exato momento. O que os documentos estabelecem com certeza é que, ao chegar em casa com o “pó mágico”, Ivo o colocou sobre a mesa durante uma refeição. Sua filha caçula, Leide, fascinada pelo brilho, manuseou o material com as mãos e, em seguida, comeu um ovo cozido. Ao levar o alimento à boca com os dedos contaminados, ela ingeriu uma quantidade letal de partículas radioativas .
Este foi o ponto de virada mais cruel da tragédia. A contaminação, que já havia saído do ferro-velho para as casas, agora se instalava no gesto mais inocente e cotidiano: uma criança comendo à mesa com a família. A partir desse momento, o acidente deixou de ser apenas uma questão de exposição externa ou ocupacional. Ele penetrou no organismo de uma menina de 6 anos, iniciando um processo de destruição celular interna que, um mês depois, seria irreversível.
Enquanto isso, do lado de fora, a cidade permanecia alheia. Nenhum alarme havia soado. Nenhum médico havia conectado os casos de vômito e diarreia que se acumulavam nos postos de saúde. A tragédia já estava dentro das casas, dentro dos corpos, mas ainda não tinha nome.
25SET – A Falsa Calmaria que Antecedeu o Colapso
Na sexta-feira, 25 de setembro, o acidente continuava sua expansão subterrânea. Não houve um evento novo e barulhento, mas sim o agravamento contínuo dos sintomas naqueles que já haviam sido expostos nos dias anteriores. A casa de Ivo Alves Ferreira, na Rua 6, era o epicentro silencioso do desastre. Sua filha, Leide das Neves, que havia ingerido partículas do pó brilhante no dia anterior, já apresentava os primeiros sinais de um quadro que se tornaria irreversível: náuseas e uma fraqueza que a família atribuía a uma virose comum. Sua tia, Maria Gabriela Ferreira, também seguia com vômitos e diarreia persistentes, acreditando tratar-se de uma intoxicação alimentar.
Os registros médicos, analisados posteriormente, indicam que neste dia o Césio-137 já circulava pela cidade através de pessoas e objetos. A cápsula rompida permanecia no ferro-velho de Devair, na Rua 26-A, onde continuava a ser visitada por curiosos. Israel Batista dos Santos e Admilson Alves de Souza, funcionários do local, trabalhavam na desmontagem da blindagem de chumbo, recebendo doses massivas de radiação sem qualquer proteção.
A falha do sistema de saúde:
É neste ponto que a tragédia revela sua face mais cruel. Os casos de vômito, diarreia e lesões na pele já haviam levado várias pessoas a buscar atendimento médico em diferentes locais da cidade. No entanto, como os prontuários estavam dispersos e os médicos locais nunca haviam se deparado com um caso de Síndrome Aguda da Radiação, não houve conexão entre os eventos. O diagnóstico mais comum era “intoxicação alimentar” ou “alergia”. O acidente avançava mais rápido que a capacidade do sistema de compreendê-lo.
Do lado de fora, a sexta-feira em Goiânia era de absoluta normalidade. Os jornais locais noticiavam as articulações políticas e os preparativos para o fim de semana. As rádios tocavam seus programas habituais. O comércio fechava suas portas no fim da tarde e as famílias se preparavam para o descanso. Nenhum alerta, nenhuma suspeita, nenhuma autoridade mobilizada.
A tragédia já estava em curso, mas ainda corria por baixo da superfície da cidade, invisível aos olhos de quem não sabia que um pó brilhante e azul estava, naquele exato momento, destruindo silenciosamente as células de dezenas de pessoas.
26SET – A Cidade Cheia e a Contaminação em Trânsito
No sábado, 26 de setembro, Goiânia vivia um de seus fins de semana mais movimentados do ano. A cidade se preparava para receber, no domingo, uma etapa do Campeonato Mundial de Motovelocidade (MotoGP) no Autódromo Internacional Ayrton Senna. Hotéis estavam lotados, o comércio aquecido e o fluxo de visitantes de outros estados e países tomava as ruas. A capital vivia uma atmosfera de festa e normalidade.
Enquanto isso, a poucos quilômetros dali, o Césio-137 já não estava mais restrito aos focos iniciais. A contaminação havia entrado em uma fase crítica de disseminação por mobilidade humana. Wagner Mota Pereira e Roberto dos Santos Alves, já extremamente debilitados, continuavam se deslocando pela cidade em busca de atendimento médico. Seus familiares e vizinhos, por sua vez, transitavam entre as casas da Rua 57, da Rua 26-A e da Rua 6, levando consigo — sem a menor suspeita — partículas invisíveis do material radioativo em suas roupas, calçados e objetos pessoais.
O relatório da IAEA é claro ao apontar que muitos dos focos secundários de contaminação — aqueles fora do perímetro imediato dos ferros-velhos e das residências principais — surgiram exatamente neste período, entre os dias 24 e 26 de setembro. O material circulou livremente através de visitas, apertos de mão e objetos compartilhados, sem qualquer barreira.
O evento técnico crucial do dia:
É neste sábado, 26 de setembro, que ocorre um evento fundamental para a dispersão final do material. Conforme registrado no Relatório da IAEA, K.S. (Kardec Sebastião dos Santos), funcionário do Ferro Velho II (de Ivo), e outra pessoa retornaram ao prédio abandonado do IGR e removeram o que restava do equipamento: a blindagem de chumbo da cabeça do aparelho, pesando cerca de 300 kg. Eles levaram essa peça para o Ferro Velho II, na Rua 6 .
Essa peça, embora não contivesse mais a fonte principal (já removida por Wagner e Roberto), ainda estava altamente contaminada pelo contato prolongado com o Césio-137. Sua remoção e transporte representaram uma nova onda de exposição para os envolvidos e ampliaram significativamente o nível de contaminação do Ferro Velho II.
A convergência trágica:
Enquanto a blindagem de 300 kg era transportada pelas ruas como sucata comum, os hotéis de Goiânia recebiam os últimos hóspedes para o Grande Prêmio. A cidade estava mais cheia do que o normal. O contraste é estarrecedor: de um lado, a euforia do esporte internacional; do outro, uma cápsula de Césio-137 fragmentada e uma blindagem contaminada circulando livremente pela malha urbana.
O acidente já era grande. Mas ainda era completamente invisível aos olhos das autoridades, da imprensa e da população. Goiânia estava prestes a entrar para a história, mas ninguém sabia.
“Dia 27 de setembro, no domingo, aconteceu em Goiânia o Grande Prêmio Brasil de Motociclismo. Na segunda, dia 28, eu tinha um compromisso em São Paulo e aí, quando anoiteceu, o Dr. Graciano, servidor da secretaria de saúde, me ligou dizendo que havia um comentário na cidade que uma Coca-Cola havia feito mal para uns moradores do Setor Aeroporto, região central da cidade. Até então eu não imaginava que pudesse ser Césio. Ninguém imaginava. Aí, dia 29, terça-feira eu cheguei de viagem, fui para a secretaria e recebi um telefonema do físico Walter Mendes, dizendo que ele tinha um contador Geiger e que ele achava que esse material que estava fazendo mal para as pessoas era radioativo. Eu confiei nele e imediatamente liguei para o Dr. Júlio Rosental. Fui ao Governador Santillo, disse que não era certeza mas uma forte suspeita de que esse pessoal estava com algum material radioativo, por causa dessa medição feita por ele. O marco zero do acidente, porém, é o momento em que a cápsula foi retirada do Instituto (Goiano de Radioterapia). Dia 29, nós estamos considerando como o dia em que a Secretaria de Estado da Saúde tomou conhecimento do que realmente estava acontecendo, mas o dia do acidente é o dia em que eles abriram o equipamento e retiraram a cápsula dos escombros, ou seja, é 13 de setembro”. Antonio Faleiros Filho
27SET – O Contraste entre a Festa e a Morte Silenciosa
No domingo, 27 de setembro, Goiânia viveu um de seus dias mais movimentados do ano. O Autódromo Internacional Ayrton Senna estava lotado para a etapa do Campeonato Mundial de Motovelocidade (MotoGP). Arquibancadas repletas, hotéis com ocupação máxima, bares e restaurantes cheios de turistas e equipes estrangeiras. As motos roncavam na pista, os vencedores erguiam troféus e as câmeras de televisão capturavam a imagem de uma capital pujante e festiva. Ali, a vida parecia mais do que normal — era vibrante.
Enquanto o ronco dos motores dominava a atenção da cidade, a poucos quilômetros dali, em bairros como o Setor Aeroporto e o Setor Norte Ferroviário, o Césio-137 continuava seu curso silencioso e letal. Na casa de Ivo Alves Ferreira, na Rua 6, sua filha Leide das Neves, de 6 anos, já apresentava os sintomas graves da ingestão do pó radioativo ocorrida dias antes: vômitos, diarreia e uma fraqueza que a família não conseguia explicar. Sua tia, Maria Gabriela Ferreira, estava na mesma situação — acamada, sem conseguir reter alimentos, com lesões cutâneas que começavam a se espalhar pelo corpo.
No ferro-velho de Devair, na Rua 26-A, a manipulação do material continuava. Israel Batista dos Santos e Admilson Alves de Souza, funcionários do local, ainda trabalhavam na desmontagem das peças contaminadas, recebendo doses massivas de radiação sem qualquer proteção. O pó brilhante ainda era mostrado a curiosos, e pequenos fragmentos continuavam a ser distribuídos. Anotamos aqui como memória que Admilson Alves de Souza além de funcionário do ferro velho morava também em um quarto que tinha na parte dos fundos.
A convergência trágica dos dados:
O Relatório da IAEA e os inquéritos policiais são claros: neste domingo, enquanto a cidade celebrava, o sistema de saúde continuava completamente cego. Wagner Mota Pereira, internado desde o dia 23, teve seu quadro agravado e, neste dia, foi transferido do Hospital Santa Maria para o Hospital de Doenças Tropicais (HDT) , pois as lesões em sua pele foram erroneamente diagnosticadas como sintoma de uma doença infecciosa grave — talvez púrpura ou alguma virose tropical. Em nenhum momento a palavra “radiação” foi mencionada.
Os casos de vômito, diarreia e queimaduras já se acumulavam em diferentes pontos da cidade, mas cada família buscava ajuda em locais distintos. Não havia um médico que conseguisse enxergar o padrão. Não havia uma autoridade que suspeitasse de uma causa comum.
Esse contraste define o dia 27 de setembro como um dos mais cruciais da cronologia: de um lado, Goiânia recebendo o mundo, celebrando, funcionando a pleno vapor; do outro, um conjunto de casos que já não cabiam mais dentro da normalidade, mas que ainda não tinham nome, nem diagnóstico, nem rosto público. O acidente ainda não havia sido reconhecido, mas já havia feito vítimas fatais em potencial.
“Aquilo estava fazendo mal, estava deixando todo mundo doente.” Maria Gabriela
28SET – O Gesto que Rompeu o Silêncio
O dia 28 de setembro marca o ponto de virada do acidente. Após dias de adoecimento progressivo e sem qualquer diagnóstico, Maria Gabriela Ferreira tomou a decisão que mudaria o rumo da história. Convencida de que o estranho pó brilhante que seu marido Devair guardava em casa era a causa das desgraças que se abatiam sobre sua família, ela decidiu agir.
Acompanhada por Geraldo Guilherme da Silva, funcionário do ferro-velho, Maria Gabriela foi até o Ferro Velho III (localizado na Rua P-19, Setor dos Funcionários), para onde os restos da peça haviam sido levados. Lá, ela pediu que Geraldo recolhesse os fragmentos do conjunto giratório e os colocasse em um saco plástico. A peça, pesada e sem qualquer tipo de proteção, foi transportada de forma improvisada. Eles pegaram um ônibus urbano e atravessaram a cidade até a Vigilância Sanitária, na Rua 16-A, no Setor Aeroporto. Em parte do trajeto a pé, Geraldo carregou o saco nos ombros, diretamente em contato com a fonte radioativa.
O deslocamento foi feito em meio à rotina normal da cidade. Ninguém no ônibus, nas ruas ou no próprio órgão público tinha a menor ideia de que uma cápsula de Césio-137 estava sendo transportada como um objeto comum.
Ao chegar à Vigilância Sanitária, a peça foi entregue ao Dr. Paulo Roberto Monteiro. Maria Gabriela, exausta e desesperada, disse a ele: “Aquilo estava matando minha família” . O médico, sem compreender a gravidade da situação, deixou o saco sobre uma cadeira no pátio externo do prédio. Pessoas se aproximaram, observaram e tocaram o material, sem qualquer proteção.
As consequências imediatas da exposição:
- Geraldo Guilherme da Silva sofreu uma queimadura significativa no ombro onde carregou o saco. Ele recebeu uma dose estimada de corpo inteiro de 3,0 Gy e teve uma ingestão estimada de 100 MBq (2,7 mCi) .
- Dr. Paulo Roberto Monteiro recebeu uma dose estimada de 1,3 Gy, mas sua ingestão foi insignificante, pois os fragmentos permaneceram dentro do saco.
Esse gesto — o de uma mulher comum que desconfiou do brilho azul — rompeu o ciclo de desconhecimento. Pela primeira vez, o problema deixou o ambiente doméstico e entrou no campo institucional. Ainda não havia diagnóstico. Mas, a partir dali, o acidente deixaria de ser invisível.

29SET – O Alarme que Finalmente Soou
Na manhã do dia 29 de setembro, o físico Walter Mendes Ferreira foi acionado para avaliar um “objeto suspeito” que havia sido deixado no pátio da Vigilância Sanitária na noite anterior. Ele, que estava em Goiânia por acaso, foi contatado por um conhecido do Departamento de Meio Ambiente do Estado. Dirigiu-se à sede da Nuclebrás e pegou emprestado um cintilômetro — um detector de radiação altamente sensível, normalmente usado para prospecção geológica de urânio.

Ao se aproximar do prédio da Vigilância Sanitária, ainda a algumas dezenas de metros de distância, Walter ligou o aparelho. A agulha disparou imediatamente para o fundo da escala, independentemente da direção para a qual ele apontava o detector. Convencido de que o equipamento estava com defeito, ele retornou à Nuclebrás e pegou um segundo aparelho. O resultado foi idêntico. Não havia erro de medição. O que estava naquele pátio era uma fonte radioativa ativa de de 10 Gy/h e 0,4 Gy/h estando a um metro dela e extremamente perigosa.
A reação de Walter foi imediata e crucial. Ele chegou a tempo de impedir que o Corpo de Bombeiros, já acionado, executasse seu plano inicial: pegar a peça e jogá-la no rio. Em vez disso, ele orientou o isolamento do local e a evacuação de todos os ocupantes do prédio. A Polícia Militar foi acionada para impedir o acesso.
Em seguida, Walter e o Dr. Paulo Roberto Monteiro foram até o Ferro Velho I, na Rua 26-A, de onde a peça havia saído. Lá, o cintilômetro disparou novamente em níveis máximos. Havia evidências claras de contaminação espalhada por uma vasta área. Eles conversaram com Devair Alves Ferreira e, com grande dificuldade, o convenceram a evacuar sua família e os vizinhos.
Por volta das 13h00, Walter e sua equipe foram ao gabinete do Secretário de Saúde do Estado, Antônio Faleiros. Os relatos pareciam tão inacreditáveis que os funcionários resistiram em acreditar. Foi necessário muita insistência para que o Secretário compreendesse a gravidade da situação e autorizasse o acionamento dos recursos estaduais.
Às 15h00, o Diretor do Departamento de Instalações Nucleares da CNEN, José de Júlio Rozental, foi contatado no Rio de Janeiro e após analise concluiu que provavelmente a causa da contaminação era uma fonte de Césio 137 de um equipamento de radioterapia do Instituto Goiano de Radioterapia. Como era o coordenador designado para emergências nucleares orientou que se contatasse o físico do IGR para ajudar na identificação da fonte e iniciou os preparativos para enviar uma equipe a Goiânia.
O que até então eram casos isolados de vômito e queimaduras espalhados por diferentes bairros da cidade passou a ter uma causa comum e um nome: Césio-137. A tragédia, que correu silenciosa por 16 dias, finalmente entrou no campo oficial e mobilizou o país.


30SET – A Estruturação da Emergência
Na madrugada de 30 de setembro, por volta de 0h30, os primeiros técnicos da CNEN desembarcaram em Goiânia. A equipe era liderada por José de Júlio Rozental, Diretor do Departamento de Instalações Nucleares, que assumiu a coordenação geral da resposta . Ele veio acompanhado de dois técnicos do IPEN (Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares) de São Paulo, que trouxeram equipamentos de monitoração mais adequados do que o cintilômetro geológico usado por Walter Mendes Ferreira no dia anterior.
A primeira ação da equipe foi confirmar a localização exata da fonte. Eles foram ao prédio abandonado do IGR e não encontraram qualquer sinal de contaminação — confirmando que a cápsula havia sido removida intacta de lá. Em seguida, foram à Vigilância Sanitária, onde encontraram os restos da fonte dentro de um saco sobre uma cadeira no pátio. A taxa de dose a 1 metro de distância era de 0,4 Sv/h , indicando que a atividade remanescente era de cerca de 4,5 TBq (120 Ci) — menos de 10% da fonte original, provando que a maior parte do material já havia se dispersado pela cidade.
A operação de contenção da fonte:
Ainda na manhã do dia 30, Rozental coordenou uma operação de emergência para blindar a peça. Um guindaste foi usado para içar um tubo de concreto (manilha) por cima do muro do pátio e posicioná-lo sobre a cadeira onde o saco estava. Concreto foi bombeado para dentro do tubo, selando a fonte remanescente. Esta ação reduziu drasticamente os níveis de radiação na área e permitiu que parte do quarteirão fosse liberado.
A centralização dos pacientes:
Ao longo do dia, os 11 pacientes mais graves — que estavam dispersos entre o Hospital de Doenças Tropicais (HDT) e o Hospital Santa Maria — foram transferidos para o Hospital Geral de Goiânia do Instituto Nacional de Assistência Médica e Previdência Social em Goiás (HGG/INAMPS/GO) atualmente conhecido como Hospital Geral de Goiânia (HGG) . Um andar inteiro foi isolado e adaptado às pressas para funcionar como enfermaria de controle radiológico. A equipe médica da CNEN, liderada pelo Dr. Carlos Eduardo Brandão, iniciou a triagem baseada em critérios clínicos específicos:
- Tempo entre o contato e o início dos vômitos
- Intensidade das lesões cutâneas (radiodermites)
- Sinais de epilação (queda de cabelo)
- Estado geral de consciência e fraqueza
O Estádio Olímpico como centro de triagem em massa:
Fora dos hospitais, o Estádio Olímpico Pedro Ludovico foi transformado em um gigantesco centro de triagem. Pessoas que tiveram qualquer contato suspeito com as áreas contaminadas formaram filas para serem monitoradas. Nas semanas seguintes, cerca de 112.000 pessoas passariam por esse local. Neste primeiro dia, 22 pessoas foram identificadas como potencialmente contaminadas e colocadas em tendas separadas das demais .
A notícia ganha o país:
Na noite deste mesmo dia, o Jornal Nacional exibiu as primeiras reportagens sobre o acidente. Goiânia entrou no centro da atenção nacional. A cidade mudou de ritmo. O medo, a dúvida e a desinformação começaram a circular junto com as notícias. Pela primeira vez, a dimensão do acidente começou a ser compreendida publicamente. Mas, naquele momento, uma pergunta ainda ecoava sem resposta: quem sobreviveria à exposição que já havia ocorrido?

1OUT – A Transferência dos Críticos e a Consolidação da Resposta
Na quinta-feira, 1º de outubro, o acidente deixou definitivamente de ser um problema local. A imprensa nacional já não tratava o caso como uma curiosidade regional, mas como uma emergência radiológica grave. As manchetes falavam em “radiação”, “contaminação”, “risco de câncer” e “vítimas em estado crítico”. Goiânia estava no centro da atenção do país.
Enquanto o noticiário se inflamava, a resposta técnica e médica se estruturava de forma mais coordenada. Na linha de frente da saúde pública, a médica sanitarista Maria Paula Fleury Curado atuava na organização da triagem e na definição dos fluxos de atendimento para os contaminados.
A decisão crítica da madrugada:
No Hospital Geral de Goiânia (HGG), a equipe médica da CNEN e os plantonistas locais passaram a madrugada reavaliando os 11 pacientes concentrados no terceiro andar. Os critérios clínicos eram objetivos, mas os resultados eram alarmantes. A conclusão foi unânime: parte daqueles pacientes precisava de um nível de atendimento que não existia em Goiânia.
A decisão foi tomada: seis pacientes seriam transferidos imediatamente para o Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro — a única unidade no país com uma enfermaria dedicada e equipe treinada para o tratamento de vítimas de acidentes radiológicos.
Os seis transferidos foram:
- Wagner Mota Pereira – o catador que perfurou a cápsula.
- Roberto dos Santos Alves – o outro catador que ajudou na remoção.
- Devair Alves Ferreira – o dono do ferro-velho que adquiriu a peça.
- Ivo Alves Ferreira – irmão de Devair, que levou fragmentos para casa.
- Ernesto Fabiano – amigo de Devair, que removeu fragmentos com chave de fenda.
- Leide das Neves Ferreira – a menina de 6 anos, filha de Ivo, que ingeriu o pó.
O critério de seleção:
A escolha seguiu rigorosamente os protocolos internacionais para Síndrome Aguda da Radiação (SAR):
- Tempo entre exposição e início dos vômitos: quanto mais curto, maior a dose absorvida.
- Intensidade das lesões cutâneas (radiodermites): queimaduras profundas indicavam exposição severa.
- Sinais de epilação (queda de cabelo): um marcador clássico de doses acima de 3 Gy.
- Nível de comprometimento geral: fraqueza extrema e incapacidade de se alimentar.
Naquela manhã, por volta das 9h00, um avião da Força Aérea Brasileira decolou de Goiânia com os seis pacientes. A chegada ao Hospital Naval Marcílio Dias ocorreu às 12h30. A partir desse momento, o tratamento dos casos mais graves passou a ser dividido em duas frentes:
- Rio de Janeiro: os seis pacientes em estado crítico, sob cuidados intensivos especializados.
- Goiânia (HGG): os demais cinco pacientes, em monitoramento contínuo.
O impacto social se ampliava:
Enquanto o avião cruzava o céu do Brasil, o Estádio Olímpico fervilhava. As filas para triagem aumentavam exponencialmente. Pessoas que nunca haviam chegado perto das áreas contaminadas buscavam o teste por medo. Objetos passaram a ser vistos com desconfiança. O problema deixou de ser apenas médico — ele passou a afetar comportamento, circulação e relações sociais.
Esse dia marca uma mudança definitiva na cronologia. O acidente não começou quando virou manchete. Ele já existia havia 18 dias, crescendo silenciosamente dentro de casas e quintais. O que muda agora é a forma como ele passa a ser visto: com nome, com explicação e com uma resposta institucional organizada. A tragédia deixou de ser invisível. E passou a ser enfrentada.
2OUT – A Expansão Territorial da Resposta
Na sexta-feira, 2 de outubro, a resposta ao acidente entrou em uma fase de expansão operacional. Com os seis pacientes mais críticos já transferidos para o Hospital Naval Marcílio Dias no Rio de Janeiro, as equipes da CNEN puderam redirecionar parte de seus esforços para uma tarefa igualmente urgente: mapear a extensão da contaminação pela cidade.
O trabalho deixou de ser apenas médico. Passou a ser territorial.
Equipes percorreram diferentes pontos de Goiânia seguindo a trilha do material. O mapa da contaminação começou a ser desenhado a partir de uma lógica clara: cada pessoa contaminada representava um nó em uma rede de disseminação, e cada objeto manipulado por elas era um vetor em potencial. Ferro-velhos, residências, locais de trabalho, veículos e até pontos de ônibus entraram no radar da operação.
Os números do rastreamento (Boletim Técnico CNEN nº 08):
- 1.100 pessoas foram monitoradas apenas no Estádio Olímpico neste dia.
- Equipes realizaram monitoração em 15 locais decorrentes de denúncias da população.
- Foram identificados novos focos de contaminação em:
- Um aterro sanitário da COMURG, onde uma área de 0,5 m² apresentava níveis de 200 mR/h na superfície.
- Residências na Rua 57-A e na Rua 15-A, no Setor Aeroporto.
- Uma fábrica de papel (COPEL) , que teve dois caminhões carregados de material contaminado interceptados antes de saírem do Estado.
A lógica do acidente se tornou visível:
O relatório da IAEA registra que, neste dia, as equipes já haviam identificado sete focos principais de contaminação. A metodologia de trabalho foi consolidada: isolar, medir, recolher e transportar. O controle passou a incluir não apenas pessoas, mas tudo o que poderia ter sido contaminado: roupas, móveis, ferramentas, entulho de demolição e solo.
A operação começou a ser estruturada como um sistema, não mais como uma resposta improvisada. Procedimentos escritos para medição, isolamento e recolhimento de rejeitos começaram a ser elaborados.
O impacto social se aprofundou:
Enquanto os técnicos da CNEN avançavam sobre os focos, a cidade mudava de comportamento. A palavra “contaminação” entrou definitivamente no vocabulário cotidiano. Ruas eram evitadas. Moradores de bairros não afetados começaram a desconfiar de objetos vindos do Setor Aeroporto. O comércio local registrou as primeiras quedas bruscas. O acidente já não era mais apenas uma questão de saúde — ele começava a reorganizar o espaço urbano, a circulação das pessoas e a forma como Goiânia se percebia diante do risco invisível.

3OUT – A Segunda Onda de Transferências e a Consolidação da Resposta
No sábado, 3 de outubro, o acidente já havia se consolidado como um caso de repercussão nacional. O noticiário destacava a gravidade dos pacientes internados no Rio de Janeiro, falando abertamente em “risco de morte” para as vítimas mais expostas. O país acompanhava Goiânia com atenção e crescente inquietação.
A segunda transferência de pacientes críticos:
Apesar da comoção nacional, a resposta médica avançava de forma concreta. Após a transferência inicial de seis pacientes no dia 1º, mais quatro pessoas tiveram seu quadro clínico agravado nas últimas 48 horas. A equipe médica do Hospital Geral de Goiânia (HGG) decidiu que elas também precisavam da estrutura especializada do Hospital Naval Marcílio Dias.
Os quatro transferidos no dia 3 de outubro foram:
- Maria Gabriela Ferreira – esposa de Devair, que levou a peça à Vigilância Sanitária.
- Kardec Sebastião dos Santos – funcionário do Ferro Velho II, que removeu a blindagem de chumbo do prédio abandonado do IGR.
- Luiza Odete Mota dos Santos – esposa de Kardec, também contaminada.
- Admilson Alves de Souza – funcionário do ferro-velho de Devair, que trabalhou na desmontagem da blindagem.
Com essa transferência, o Hospital Naval Marcílio Dias passou a concentrar 10 pacientes, todos em estado crítico ou grave. O HGG permaneceu com os casos de menor complexidade, sob monitoramento contínuo. A crise deixou de ser apenas de atendimento emergencial e passou a ser de gestão hospitalar especializada.
O drama silencioso dos isolados na FEBEM:
Enquanto as aeronaves da FAB cruzavam o céu rumo ao Rio, em Goiânia um outro tipo de sofrimento se instalava entre os familiares que permaneciam isolados no Centro de Recuperação Feminina da FEBEM, no Jardim Europa. Entre eles estava Lourdes das Neves Ferreira, mãe da pequena Leide. Separada da filha de seis anos, que acabara de ser levada para tratamento intensivo, Lourdes entrou em um quadro de depressão reativa severa e estresse pós-traumático agudo. Os registros médicos da CNEN indicam que, neste período, ela precisou receber acompanhamento psicológico contínuo e medicação controlada com ansiolíticos e calmantes para conseguir suportar a angústia do isolamento e a incerteza sobre o destino da filha. O uso desses medicamentos, essencial para estabilizá-la emocionalmente, gerou entre os demais abrigados e até na imprensa a percepção de que Lourdes “vivia dopada” — uma descrição coloquial para o estado de torpor e alheamento provocado pelo choque emocional e pela sedação psiquiátrica.
A estruturação da resposta técnica:
Enquanto isso, as equipes da CNEN em Goiânia consolidavam sua estrutura operacional. Neste dia, foi estabelecido um sistema de relatórios diários e a divisão das equipes em grupos especializados: monitoração ambiental, controle de rejeitos, atendimento à população e descontaminação de áreas.
O Estádio Olímpico já havia triado dezenas de milhares de pessoas. Os procedimentos começaram a ser padronizados: como recolher materiais contaminados, como transportar resíduos, como medir e liberar áreas. A operação deixou de ser reativa e passou a ser organizada e sistêmica.
A mudança de percepção:
O significado do acidente também começou a se transformar. O que antes era visto como um evento estranho e localizado passou a ser interpretado como resultado de uma sequência de falhas estruturais: abandono de equipamento radioativo, ausência de fiscalização efetiva, demora na identificação do risco e despreparo do sistema de saúde para reconhecer os sintomas.
Goiânia deixou de ser apenas o cenário de uma tragédia. Passou a ser um caso que expunha as fragilidades do sistema de controle de materiais radioativos no Brasil. O acidente deixou de ser apenas um acontecimento. E passou a ser um alerta nacional.

4OUT – O Céu como Testemunha e o Mundo como Aliado
No domingo, 4 de outubro, enquanto Goiânia ainda digeria o impacto das primeiras manchetes nacionais, uma nova frente de trabalho se abriu nos céus da capital. Um helicóptero da Força Aérea Brasileira, equipado com espectrômetros gama e detectores de iodeto de sódio, iniciou o mapeamento aerorradiométrico de toda a área urbana. O objetivo era claro e urgente: confirmar que nenhum foco relevante de contaminação havia escapado ao rastreamento terrestre.
A uma altitude de 40 metros e a uma velocidade de 60 km/h, os sensores vasculharam os 67 quilômetros quadrados da malha urbana de Goiânia. O resultado trouxe alívio e confirmação: os sete focos principais já identificados eram os únicos de alta periculosidade. Apenas um novo ponto discreto foi detectado, com taxa de dose de 21 mSv/h a 1 metro de distância — significativo, mas localizado e controlável .
Neste mesmo dia, o acidente de Goiânia entrou oficialmente no radar da comunidade internacional. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) foi formalmente notificada pela CNEN. Pela primeira vez na história, o Brasil acionou os mecanismos da recém-criada Convenção sobre Assistência em Caso de Acidente Nuclear ou Emergência Radiológica. Em poucas horas, especialistas da Argentina, Estados Unidos, Alemanha Ocidental e União Soviética começaram a ser mobilizados para auxiliar no tratamento das vítimas e na avaliação da contaminação.
Tabela – Locais envolvidos no acidente radioativo (CNEN 04/10/87) – (Césio-137)
| Ponto | Endereço | Bairro | Espécie |
|---|---|---|---|
| 01 | Inst. Goiano Radioterapia | S. Central | Local inicial da fonte |
| 02 | Rua 57, 68 | S. Central | Residência |
| 03 | Rua 26-A Q Z L 25 | S. Aeroporto | Ferro velho |
| 04 | Rua 15-A Q 25 L 25 | S. Aeroporto | Residência |
| 05 | Rua 17-A Q 70-A | S. Aeroporto | Residência |
| 06 | Rua 6 Qd Q L 18 | S. Norte Ferroviário | Ferro velho |
| 07 | Rua P-19 Q 92 L 04 | S. Funcionários | Ferro velho |
| 08 | Cidade de Goiás | S. Central | Casa comercial |
| 09 | Rua 16-A, 792 | S. Aeroporto | Vigilância sanitária |
| 10 | Rua 63, 179 fundos | S. Central | Residência |
| 11 | Rua P-19 Q P-92 L 01 | S. Funcionários | Passeio público |
| 12 | Rua P-19 Q 92 L 02 | S. Funcionários | Ferro velho |
| 13 | Rua P-19 Q P-91 L 01 | S. Funcionários | Passeio público |
| 14 | Rua 16-A Q 24-A L-06 | S. Aeroporto | Passeio público |
| 15 | Rua 16-A Q 25-A L-06 | S. Aeroporto | Passeio público |
| 16 | Rua 69-A, 125-A fundos | S. Norte Ferroviário | Residência |
| 17 | 6ª Avenida Q 44 L 22 | S. Universitário | Gráfica |
| 18 | CODJ | S. Aeroporto | Órgão público |
| 19 | Colégio Agostiniano | S. Aeroporto | Colégio |
| 20 | Educandário Logosófico | S. Aeroporto | Colégio |
| 21 | Rua Diamante, 21 L 12 | S. Sta Genoveva | Copel |
| 22 | Rua 5 Q F L 16 | S. Mal Rondon | — |
| 23 | Rua 5 Q F L 19 | S. Mal Rondon | Ferro velho |
| 24 | Escola 5 de Julho | S. Central | Colégio |
| 25 | Rua 23 Q 71, 641 | S. Central | Hospital Santa Catarina |
| 26 | Rua 5 Q 17 L 14 | S. Oeste | Pronto socorro queimaduras |
| 27 | Rua 802 C / Rua 801 | V. Oswaldo Rosa | Terreno baldio |
| 28 | Rua Anchieta Q 21 L 24 | S. Rodoviário | Ferro velho |
| 29 | SENAC e arredores | S. Aeroporto | Órgão público |
| 30 | Hospital das Clínicas | S. Universitário | Hospital |
| 31 | Rua 80 com Rua 59 | S. Central | Prédio |
| 32 | Rua 15-A Q 70-B | S. Aeroporto | — |
| 33 | Rua 8, 38 | S. Norte Ferroviário | — |
| 34 | Rua 68 S/N | S. Central | Hospital |
| 35 | Rua 04 Qd 3 L 14 | V. Sta Helena | — |
| 36 | Rua 10 S/N | S. Oeste | — |
| 37 | Av. da Divisa Q 48 L 07 | V. Sta Helena | Passeio público |
| 38 | Av. T-2 Q 35 L 5 | S. Bueno | Depósito Prefeitura |
| 39 | Rua 74 esq. Rua 57 | S. Central | Farmácia Santo Onofre |
| 40 | Rua 15-A c/ Independência | S. Aeroporto | Tropical Pneus |
| 41 | Rua 5 esq. c/ Rua 8 | S. Norte Ferroviário | Residência |
| 42 | Av. B Q 7 L 6 | Vila Moraes | Ferro velho |
| 43 | Rua 7 Q H L 11 | S. Marechal Rondon | — |
| 44 | Rua 59 Q 121 L 20 | S. Central | Residência |
| 45 | Rua 8 Q 5 L 14, 79 | S. Norte Ferroviário | — |
| 46 | Rua C-25 Q-7 L 20 | Jardim América | Depósito de papel |
| 47 | Rua 231 Esq. C/ 232 | S. Universitário | FUNDEC |
| 48 | Rua 30-A c/ Av. Capim Puba | S. Aeroporto | Gráfica |
| 49 | Av. Goiás Q-128 | S. Central | Mini Box |
| 50 | Rua 55 Q-120 L-26 | S. Central | Residência |
| 51 | Rua 261 Esq. C/ 118 A | S. Universitário | FEBEM |
| 52 | Rua 10 | S. Universitário | Imprensa UFG |
| 53 | Rua C-179 Q 443 L 13 | Jardim América | Residência |
5OUT – A Definição do Depósito e a Resistência Local
Na segunda-feira, 5 de outubro, uma das decisões mais espinhosas da crise foi tomada. Após dias de buscas e intensa pressão política, a CNEN e o Governo de Goiás definiram o local que abrigaria provisoriamente os rejeitos radioativos: uma área de 16 alqueires pertencente ao Banco do Estado de Goiás (BEG), localizada no município de Abadia de Goiás, a cerca de 20 quilômetros do centro da capital.
O governador Henrique Santillo foi taxativo em sua declaração: “Este depósito é provisório. Goiás não será o cemitério definitivo do lixo atômico do Brasil.” A declaração era uma tentativa de acalmar os ânimos da população local, que já começava a se organizar contra a medida.
Enquanto isso, no Estádio Olímpico, o fluxo de pessoas em busca de monitoração não diminuía. Já eram dezenas de milhares os cidadãos que haviam passado pelos detectores. O medo do invisível se espalhava mais rápido do que qualquer partícula radioativa.
6OUT – A Chegada dos Estrangeiros e o Inquérito Federal
Na terça-feira, 6 de outubro, os primeiros especialistas estrangeiros desembarcaram no Brasil. O argentino Juan Carlos Jimenez, o norte-americano Lush Baugh e o alemão Gunther Drexler integraram-se às equipes médicas do Hospital Naval Marcílio Dias e do HGG. A presença deles trouxe não apenas expertise técnica, mas também um selo de validação internacional aos protocolos de tratamento que estavam sendo aplicados.
No campo jurídico, a Superintendência Regional da Polícia Federal assumiu oficialmente a condução do inquérito para apurar as responsabilidades criminais pelo acidente. O Superintendente Francisco de Barros Lima instaurou o Inquérito Policial nº 157/SR/DPF/GO. A investigação se concentraria em duas frentes: o abandono do equipamento pelos proprietários do IGR e a falha na fiscalização por parte dos órgãos competentes, especialmente a CNEN. Abaixo foto de material formativo distribuído pelo Governo de Goiás.


7OUT – A Palavra das Vítimas e o Silêncio dos Responsáveis
Na quarta-feira, 7 de outubro, os primeiros depoimentos formais começaram a ser colhidos pela Polícia Federal. Os proprietários do IGR — Carlos de Figueiredo Bezerril, Orlando Alves Teixeira e Criseide Castro Dourado — foram ouvidos. Suas defesas iniciais se basearam em duas alegações principais: que a mudança da clínica ocorreu em meio a uma disputa judicial e que a responsabilidade pela fiscalização era exclusiva da CNEN.
Paralelamente, as equipes de descontaminação avançavam sobre os focos secundários. A COPEL, fábrica de papel que havia recebido material contaminado do ferro-velho de Ivo, teve dezenas de fardos interceptados antes que fossem despachados para outros estados. A rede de rastreamento se expandia para além dos limites de Goiânia, alcançando cidades como Anápolis e Aparecida de Goiânia, onde parentes das vítimas haviam levado, sem saber, roupas e objetos contaminados.
8OUT – A Confirmação Aérea e o Alívio Cauteloso
O levantamento aerorradiométrico foi oficialmente concluído e divulgado em 8 de outubro. Os mapas gerados pelos sobrevoos mostravam claramente as manchas de contaminação concentradas nos focos já conhecidos: as ruas 57, 26-A, 6, 15-A, 17-A e P-19. Fora desses perímetros, a cidade apresentava níveis normais de radiação de fundo.
Este resultado foi crucial para acalmar parcialmente a população. As autoridades passaram a repetir, em entrevistas coletivas diárias, que “fora das áreas isoladas, não há risco para a população”. A frase, embora verdadeira do ponto de vista técnico, não era suficiente para dissipar o estigma que já começava a se formar sobre Goiânia.
9OUT – A Cidade Sob Vigilância Terrestre
Além do rastreamento aéreo, as equipes da CNEN iniciaram o monitoramento terrestre da malha viária. Detectores de radiação foram instalados em veículos que percorreram, nas semanas seguintes, mais de 2.000 quilômetros de ruas e avenidas da capital. O objetivo era detectar possíveis “rastros” de contaminação deixados pelo trânsito de pessoas e veículos contaminados.
Neste mesmo dia, o Hospital Geral de Goiânia (HGG) recebeu um contador de corpo inteiro (whole body counter) improvisado, montado com detectores de iodeto de sódio trazidos do Rio de Janeiro. O equipamento permitia medir, com razoável precisão, a quantidade de Césio-137 incorporada pelos pacientes, orientando as doses do medicamento Azul da Prússia (Radiogardase) , que estava sendo administrado para acelerar a eliminação do material radioativo do organismo.
10OUT – A Chegada do Reforço Soviético e Americano
Na sexta-feira, 10 de outubro, chegaram a Goiânia dois dos mais experientes especialistas em acidentes radiológicos do mundo: o Dr. George Selidovkin, hematologista soviético que havia trabalhado no tratamento das vítimas de Chernobyl, e o Dr. Robert Ricks, diretor do REAC/TS (Radiation Emergency Assistance Center/Training Site) dos Estados Unidos.
A presença deles no Hospital Naval Marcílio Dias trouxe uma nova perspectiva sobre o prognóstico dos pacientes mais graves. Selidovkin, em particular, compartilhou a dura experiência soviética: nenhum paciente que recebeu mais de 6 Gy em Chernobyl sobreviveu. A menina Leide das Neves, com uma dose estimada de 6,0 Gy, estava exatamente neste limiar.
11OUT – O Presidente da CNEN Enfrenta a Imprensa
Após dias de críticas por sua ausência, o Presidente da CNEN, Rex Nazaré Alves, finalmente desembarcou em Goiânia na manhã de 11 de outubro. Em uma entrevista coletiva tensa, ele defendeu a atuação do órgão: “A CNEN cumpriu todas as suas atribuições legais. A responsabilidade primária por comunicar a desativação da fonte era do Instituto Goiano de Radioterapia.”
A declaração gerou indignação em setores da imprensa e do governo estadual. O governador Henrique Santillo rebateu no dia seguinte, chamando a CNEN de “órgão incompetente e desorganizado” e cobrando um cronograma claro para a remoção dos rejeitos do centro da cidade.
13OUT – O Presidente da República em Goiânia
Na segunda-feira, 13 de outubro, o Presidente José Sarney visitou Goiânia. Acompanhado do governador Santillo e de uma comitiva de ministros, ele percorreu a área isolada da Rua 57 e visitou os pacientes internados no HGG. Em uma declaração que entraria para a história, afirmou: “O que vimos não pode ser comparado a um acidente nuclear como o de Chernobyl. Aqui não houve acidente nuclear, mas um acidente radioativo.”
Sarney anunciou que o governo federal cobriria as despesas do Estado de Goiás com a emergência — uma promessa que, na prática, levaria meses para ser parcialmente cumprida. Ele também confirmou que a Serra do Cachimbo, no Pará, era a opção preferencial para o depósito definitivo dos rejeitos.
“Se a gente soubesse do perigo, não tinha mexido com aquilo. Eles largaram a peça lá, não tiraram o perigo que estava lá. Eu perdi meu braço, perdi meus amigos. E ninguém foi preso.”
Roberto dos Santos Alves
14OUT – A Primeira Amputação


A manhã de 14 de outubro trouxe uma notícia que materializou, de forma brutal, a gravidade das lesões causadas pelo Césio-137. Roberto dos Santos Alves, um dos catadores que removeu a peça do prédio abandonado do IGR, teve o antebraço direito amputado no Hospital Naval Marcílio Dias.
A cirurgia foi necessária devido à necrose tecidual irreversível causada pelas queimaduras actínicas. Roberto havia segurado a peça com a mão direita sobre a abertura do feixe de radiação enquanto tentava desmontá-la. A dose localizada na extremidade foi tão alta que nenhum tratamento conseguiu reverter a destruição celular.
A notícia da amputação correu o país e aumentou o clima de apreensão sobre o destino dos demais pacientes, especialmente Wagner Mota Pereira, que apresentava lesões semelhantes nas mãos.
15OUT – O Impasse do Lixo Atômico
Enquanto os médicos lutavam para salvar vidas no Rio de Janeiro, uma batalha política se desenrolava em Brasília. O Presidente Sarney enviou ao Congresso Nacional um projeto de lei que atribuía a cada Estado da Federação a responsabilidade de dar destinação final aos rejeitos radioativos produzidos em seu território.
A proposta caiu como uma bomba em Goiás. O governador Henrique Santillo reagiu com veemência: “Goiás não será a lixeira atômica do Brasil. A responsabilidade por este acidente é da União, e a União deve arcar com o ônus de dar um destino definitivo a este lixo.”
A bancada goiana no Congresso se articulou para apresentar um substitutivo que mantinha a responsabilidade federal sobre o depósito definitivo e estabelecia um prazo máximo de 180 dias para a remoção do material de Goiás.
18OUT – A Revolta de Abadia de Goiás
No domingo, 18 de outubro, a tensão que vinha se acumulando nos arredores do local escolhido para o depósito provisório explodiu. Moradores de Abadia de Goiás e de povoados vizinhos, armados com tratores, caminhões e máquinas agrícolas, bloquearam a BR-060 em protesto contra a instalação do depósito de rejeitos.
Os manifestantes ergueram faixas com dizeres como “Não queremos ser o cemitério atômico de Goiás” e “O lixo é de vocês, a morte é nossa”. O bloqueio durou horas e só foi desfeito após a intervenção de uma comissão negociadora liderada pelo senador Irapuan Costa Júnior. O governo se comprometeu a acelerar os estudos para a remoção definitiva do material para fora do Estado.
21OUT – As Obras no Depósito Provisório
Apesar dos protestos, as obras no depósito provisório de Abadia de Goiás não pararam. Na quarta-feira, 21 de outubro, teve início a concretagem da primeira plataforma de armazenamento. O projeto previa nove plataformas de 18 metros de largura por 60 metros de comprimento, com capacidade total para 2.048 tambores de 200 litros e 512 caixas metálicas de 5 toneladas .
Enquanto o concreto secava sob o sol do cerrado, as equipes da CNEN continuavam o trabalho árduo de remoção de solo contaminado nos focos principais. Na Rua 57, duas mangueiras que haviam absorvido Césio-137 pelas raízes foram arrancadas e tratadas como rejeito radioativo — um símbolo de como a contaminação havia penetrado profundamente no ambiente urbano.
23OUT – O Dia Mais Sombrio
A sexta-feira, 23 de outubro de 1987, entraria para a história de Goiânia como o dia mais sombrio do acidente.
Às 11h55, Maria Gabriela Ferreira, de 37 anos, faleceu no Hospital Naval Marcílio Dias. Ela foi a mulher que, ao desconfiar do pó brilhante, pegou a peça e a levou à Vigilância Sanitária — o gesto que salvou a cidade de uma tragédia ainda maior. Sua dose estimada era de 5,7 Gy. A causa da morte foi hemorragia difusa em todos os órgãos, característica da Síndrome Aguda da Radiação (SAR).

Horas depois, às 18h10, a pequena Leide das Neves Ferreira, de apenas 6 anos, também sucumbiu. Ela havia ingerido partículas do Césio-137 ao comer um sanduíche com as mãos contaminadas. Sua dose estimada foi a mais alta entre todas as vítimas: 6,0 Gy. A autópsia revelou hemorragia pulmonar, necrose intestinal e falência múltipla de órgãos.

As duas mortes, anunciadas em um único dia, paralisaram o país. O governador Henrique Santillo decretou luto oficial de três dias em todo o Estado de Goiás.

24OUT – O Aniversário que Não Houve
O dia 24 de outubro deveria ser de festa. Goiânia completava 54 anos de fundação. Uma extensa programação de shows, desfiles e inaugurações havia sido preparada. Tudo foi cancelado.
Em lugar da festa, um culto ecumênico foi realizado na Praça Cívica. O Arcebispo de Goiânia, Dom Antônio Ribeiro de Oliveira, celebrou a missa diante de milhares de pessoas. O Presidente da Assembleia Nacional Constituinte, deputado Ulysses Guimarães, compareceu para prestar solidariedade.
A cidade, que dias antes vibrava com o ronco das motos do MotoGP, agora se recolhia em silêncio e luto.
26OUT – O Enterro Tumultuado

Os corpos de Maria Gabriela e Leide chegaram a Goiânia em um avião Hércules C-130 da Força Aérea Brasileira. Dentro de caixões revestidos de chumbo pesando 700 kg cada, foram transportados diretamente para o Cemitério Parque.
O que deveria ser um momento de despedida e luto transformou-se em cenas de violência e pânico. Moradores dos bairros vizinhos ao cemitério, temendo que os corpos “contaminassem” o solo e o lençol freático, tentaram impedir o sepultamento. Pedras foram atiradas contra o veículo funerário. A Polícia Militar precisou intervir com um cordão de isolamento para garantir que os caixões fossem baixados às sepulturas.
As covas haviam sido preparadas com paredes de concreto armado de 30 centímetros de espessura. Após o sepultamento, uma laje de concreto foi colocada sobre os túmulos e, por cima dela, mais uma camada de concreto foi despejada. Dosímetros foram instalados no local para monitoramento contínuo.
O físico José de Júlio Rozental tentou acalmar a multidão: “Não há risco de contaminação. As urnas são blindadas e as sepulturas foram projetadas para reter qualquer radiação.” Mas o medo já estava enraizado.
27OUT – A Terceira Morte
Na manhã de 27 de outubro, o Hospital Naval Marcílio Dias anunciou a terceira morte do acidente. Israel Batista dos Santos, de 22 anos, funcionário do ferro-velho de Devair, faleceu às 6h40.
Israel havia trabalhado diretamente na remoção do chumbo da blindagem da fonte, recebendo uma dose estimada de 4,5 Gy. Nas últimas 48 horas, seu quadro clínico se deteriorou rapidamente: ele entrou em pré-coma, sofreu duas paradas cardíacas e desenvolveu hemorragia pulmonar bilateral.
A notícia de sua morte, embora esperada pela equipe médica, reforçou o clima de luto e apreensão que já dominava Goiânia.

28OUT – A Quarta e Última Morte Direta
Menos de 30 horas depois, ao meio-dia de 28 de outubro, a quarta vítima fatal foi confirmada. Admilson Alves de Souza, de apenas 18 anos, também funcionário do ferro-velho de Devair, faleceu no Hospital Naval Marcílio Dias.
Admilson era o mais jovem dos funcionários do ferro-velho. Sua dose estimada foi de 5,3 Gy. Ele desenvolveu febre alta persistente e infecção generalizada (septicemia) , quadro típico da fase crítica da SAR, quando a medula óssea deixa de produzir glóbulos brancos e o organismo fica completamente vulnerável a infecções oportunistas.
Com a morte de Admilson, fechou-se o ciclo de óbitos diretos causados pela exposição aguda ao Césio-137. Quatro vidas — duas mulheres, uma criança e dois jovens trabalhadores — foram ceifadas pela combinação de abandono institucional, desinformação e fascínio pelo brilho azul da morte.
30OUT – O Segundo Enterro, Sem Protestos
Na sexta-feira, 30 de outubro, os corpos de Israel e Admilson chegaram a Goiânia e foram sepultados no Cemitério Parque, ao lado das duas primeiras vítimas. Desta vez, não houve protestos.
O clima era de recolhimento e resignação. As famílias das vítimas, exaustas, acompanharam o sepultamento em silêncio. A cidade, que semanas antes havia se revoltado contra o “cemitério atômico”, agora parecia compreender que aquelas pessoas não eram uma ameaça — eram vítimas inocentes de um sistema falho.
Os quatro túmulos, selados com grossas camadas de concreto e monitorados permanentemente, tornaram-se um memorial involuntário da maior tragédia radiológica urbana da história.
1º a 15 de novembro – A Preparação do Terreno e a Chegada dos Soldados
Novembro começou com uma corrida contra o tempo. As chuvas típicas do cerrado já haviam começado a cair sobre Goiânia, ameaçando espalhar ainda mais a contaminação remanescente. A primeira quinzena do mês foi dedicada à conclusão das obras do depósito provisório em Abadia de Goiás e à montagem da maior operação de descontaminação radiológica já realizada em área urbana no mundo.
No dia 4 de novembro, chegaram a Goiânia 18 soldados da Escola de Instrução Especializada do Exército (EsIE) , vindos do Rio de Janeiro. Eles haviam recebido treinamento específico em defesa química, biológica e nuclear e foram integrados às equipes da CNEN para trabalhar na remoção de rejeitos dos focos mais críticos. O reforço militar era essencial: as áreas mais contaminadas exigiam turnos de trabalho de apenas alguns minutos, seguidos de longos períodos de descontaminação e descanso, devido às altas taxas de dose.
Nesta mesma semana, a construtora Andrade Gutierrez — contratada pela CNEN por sua experiência na mina de urânio de Poços de Caldas — mobilizou retroescavadeiras, caminhões-caçamba e equipes de operadores para iniciar a remoção de solo contaminado. Um robô adaptado com câmeras e um contador Geiger foi trazido de São Paulo pela empresa Blump Robótica para auxiliar na detecção de “pontos quentes” em locais de difícil acesso.
16 a 30 de novembro – A Demolição das Casas e a Remoção do Solo

A segunda quinzena de novembro foi marcada pelo trabalho mais pesado e simbólico de toda a operação: a demolição de sete residências cujos níveis de contaminação eram tão elevados que a descontaminação se mostrou inviável. Entre elas estavam:
- A casa de Roberto dos Santos Alves, na Rua 57 — o local onde a cápsula foi perfurada e o pó de Césio-137 se espalhou pelo quintal e interior da residência.
- A casa de Ivo Alves Ferreira, na Rua 6 — onde a pequena Leide ingeriu as partículas fatais durante uma refeição.
- O barracão do ferro-velho de Devair, na Rua 26-A — onde a cápsula foi completamente rompida e o material distribuído.
A demolição não foi um simples ato de derrubar paredes. Cada tijolo, cada telha, cada centímetro de piso e de solo abaixo dele foi tratado como rejeito radioativo. As retroescavadeiras operavam sob monitoração constante de técnicos da CNEN. O entulho era imediatamente acondicionado em tambores de aço de 200 litros ou em caixas metálicas de 5 toneladas, lacrados e transportados em comboios para o depósito de Abadia de Goiás.
Os números da operação (até 30 de novembro):
- 3.500 metros cúbicos de rejeitos radioativos gerados.
- 3.800 tambores de 200 litros preenchidos.
- 1.400 caixas metálicas de 5 toneladas utilizadas.
- 275 viagens de caminhão entre os focos de contaminação e o depósito provisório.
- Mais de 550 trabalhadores envolvidos diretamente na operação, entre técnicos da CNEN, soldados do Exército, operários da Andrade Gutierrez e equipes de apoio.
No dia 21 de novembro, a Rua 57 foi oficialmente liberada. O local onde a cápsula fora perfurada, que chegou a apresentar taxas de dose de até 1,5 Sv/h (1.500 mSv/h) em alguns pontos, foi completamente raspado, concretado e coberto com uma camada de solo limpo. O governador Henrique Santillo visitou o local e declarou: “Esta rua não será esquecida. Aqui nascerá um memorial para que as futuras gerações saibam o que a negligência pode causar.”

1º a 21 de dezembro – A Última Fase da Descontaminação
Dezembro foi o mês da corrida final. O Presidente da CNEN, Rex Nazaré, havia estabelecido uma meta clara: descontaminar todos os focos principais até o Natal, permitindo que as famílias evacuadas pudessem, ao menos, passar as festas em suas casas — quando possível — e que os trabalhadores pudessem retornar às suas famílias.
As equipes trabalharam em turnos de 12 horas diárias, muitas vezes sob chuva intensa. A lama contaminada dificultava o trabalho das máquinas e aumentava o risco de exposição dos operadores. Dosímetros individuais eram lidos diariamente; ninguém poderia exceder a dose limite de 1,5 mSv por dia estabelecida pela CNEN para a operação.
No dia 19 de dezembro, o último foco principal — o Ferro Velho II, na Rua 6 — foi considerado descontaminado. A área foi coberta com uma camada de 30 centímetros de solo limpo e uma placa de concreto foi colocada sobre o local exato onde a cápsula havia sido manipulada.
Em 21 de dezembro, a CNEN anunciou oficialmente: todos os focos de alta periculosidade haviam sido eliminados. A cidade podia respirar, ainda que com cautela. As 41 famílias evacuadas das áreas de maior risco foram autorizadas a retornar às suas casas — exceto aquelas cujas residências haviam sido demolidas, que receberam indenização do governo estadual.
O Destino Final dos Rejeitos: De Provisório a Definitivo

O que deveria ser um depósito provisório em Abadia de Goiás, com prazo máximo de dois anos para remoção, acabou se tornando definitivo. As negociações para transferir os rejeitos para a Serra do Cachimbo, no Pará, ou para qualquer outro local fora de Goiás, fracassaram diante da resistência política de outros Estados e da ausência de uma política nacional clara para rejeitos radioativos.
Em 5 de junho de 1997, quase dez anos após o acidente, foi inaugurado oficialmente o Depósito de Rejeitos Radioativos de Abadia de Goiás. O complexo, administrado pelo Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro-Oeste (CRCN-CO) , unidade da CNEN, abriga:
- 3.500 metros cúbicos de rejeitos sólidos.
- 4.200 tambores de 200 litros.
- 1.400 caixas metálicas de 5 toneladas.
- 10 contêineres de 32 metros cúbicos cada.
- Seis conjuntos de embalagem de concreto (VBAs) contendo os materiais mais radioativos, incluindo os restos da própria cápsula de Césio-137.
O depósito foi construído sobre uma plataforma de concreto de 30 centímetros de espessura, com canais de drenagem que permitem a coleta e análise de toda a água da chuva que escoa pelo local. Dosímetros e poços de monitoramento do lençol freático foram instalados no perímetro. A cada três meses, técnicos da CNEN coletam amostras de solo, vegetação, água superficial e subterrânea. Nunca foi detectado qualquer vazamento de material radioativo.

A vida útil estimada do depósito é de 300 anos — o tempo necessário para que a radioatividade do Césio-137 (meia-vida de 30 anos) decaia a níveis insignificantes.
A Responsabilização Penal: A Justiça que Não Veio por Completo
O Inquérito Policial nº 157/SR/DPF/GO foi instaurado em 7 de outubro de 1987 e concluído em 20 de novembro do mesmo ano. O relatório final, com mais de 1.100 páginas, indiciou sete pessoas. Em 30 de novembro de 1987, o Ministério Público Federal (MPF) ofereceu denúncia formal contra cinco delas.
Os denunciados e os fundamentos da acusação:
- Carlos de Figueiredo Bezerril – médico e sócio-proprietário do IGR.
- Orlando Alves Teixeira – médico e sócio-proprietário do IGR.
- Criseide de Castro Dourado – médica e sócia-proprietária do IGR.
- Flamarion Barbosa Goulart – físico responsável pela proteção radiológica do IGR.
- Amaurillo Monteiro de Oliveira – ex-proprietário do IGR e proprietário do imóvel abandonado.
A denúncia apontou que:
- O IGR não comunicou à CNEN a desativação da fonte de Césio-137, violando a Resolução CNEN-09/84.
- O equipamento foi abandonado em um prédio sem vigilância, sem portas e sem sinalização de risco.
- Amaurillo Monteiro de Oliveira autorizou a retirada de telhas, janelas e outros materiais do prédio, expondo ainda mais a fonte e facilitando o acesso de terceiros.
- Os denunciados tinham pleno conhecimento da periculosidade do material e das exigências técnicas para sua guarda e destinação adequada.
Os crimes imputados:
- Homicídio culposo (art. 121, §3º do Código Penal) pelas quatro mortes.
- Lesão corporal culposa (art. 129, §6º) pelas 16 vítimas que sofreram queimaduras e outros danos físicos.
A Sentença de 1992
Em 29 de julho de 1992, o juiz federal Wilson Alves de Souza, da 3ª Vara da Justiça Federal em Goiás, proferiu a sentença de primeira instância:
- Amaurillo Monteiro de Oliveira foi absolvido. O juiz entendeu que ele não integrava mais o IGR à época do abandono definitivo do prédio e que sua conduta (retirada de materiais de construção) não tinha nexo causal direto com o acidente.
- Carlos Bezerril, Orlando Teixeira, Criseide Dourado e Flamarion Goulart foram condenados a:
- Três anos de detenção pela prática de quatro homicídios culposos e 16 lesões corporais culposas.
- Suspensão do exercício profissional por três anos (cassação temporária do registro para atuar com radiação).
A pena privativa de liberdade foi substituída por penas restritivas de direitos:
- Prestação de serviços à comunidade.
- Multa pecuniária.
Nenhum dos condenados cumpriu um único dia de prisão em regime fechado.
Os Recursos e o Indulto Presidencial
A defesa recorreu ao Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) . Em 16 de setembro de 1995, os desembargadores alteraram a sentença:
- Reconheceram a prescrição das acusações de lesão corporal culposa.
- Amaurillo, antes absolvido, foi condenado por homicídio culposo a um ano e dois meses de detenção em regime aberto.
- Os demais réus tiveram as penas majoradas para três anos e dois meses, com determinação de cumprimento em regime aberto.
Em dezembro de 1996, o Supremo Tribunal Federal (STF) restabeleceu a substituição das penas de prisão por medidas alternativas, com base no princípio da vedação à reformatio in pejus (impossibilidade de agravar a pena quando apenas a defesa recorre).
O desfecho final veio em 1997: os condenados foram beneficiados por um indulto presidencial assinado por Fernando Henrique Cardoso, que extinguiu definitivamente as punições.
Ninguém cumpriu pena de prisão. Ninguém perdeu definitivamente o direito de exercer a medicina ou a física hospitalar.
Os Catadores: De Acusados a Vítimas
Wagner Mota Pereira e Roberto dos Santos Alves chegaram a ser inicialmente acusados de furto do equipamento. No entanto, a Justiça reconheceu que, como leigos, eles não tinham capacidade de compreender o risco do objeto encontrado em um local abandonado e sem qualquer sinalização de perigo. Ambos foram formalmente tratados como vítimas do acidente, não como criminosos.
Roberto perdeu o braço direito. Wagner sobreviveu com sequelas permanentes nas mãos. Ambos receberam pensões vitalícias do governo federal.
A Esfera Cível: Indenizações e Assistência Vitalícia
No campo cível, a Justiça Federal condenou solidariamente, em sentença do ano 2000:
- A CNEN, ao pagamento de R$ 1 milhão por danos difusos, por falha no dever de fiscalização.
- A União Federal, ao pagamento de R$ 2 milhões por omissão na vigilância sanitária.
- O Estado de Goiás, ao pagamento de R$ 100 mil e à garantia de pensões vitalícias às vítimas.
- O IPASGO, ao pagamento de R$ 100 mil.
A decisão mais importante, porém, foi a garantia de assistência médica, psicológica e odontológica vitalícia e integral às vítimas e seus descendentes — um direito que segue sendo exercido até hoje.
Um Vazio na Lei
A ausência de punições mais severas expôs uma fragilidade do ordenamento jurídico brasileiro à época: não havia previsão legal específica para o crime de abandono de substância radioativa. A Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/98), que passou a tipificar de forma mais abrangente condutas lesivas ao meio ambiente, só foi sancionada dez anos após o acidente.
O Césio-137 escancarou uma verdade incômoda: o Brasil tinha normas técnicas para o manejo de material radioativo, mas não tinha leis penais à altura do risco que esse material representava.
Outras Vítimas: O Legado Silencioso da Radiação
Quando os holofotes se apagaram e as equipes de descontaminação deixaram Goiânia, a tragédia do Césio-137 entrou em uma nova fase: a da contabilidade silenciosa das sequelas. As quatro mortes ocorridas em outubro de 1987 foram apenas a ponta mais visível de um iceberg de sofrimento que se estenderia por décadas.
O Destino de Devair
Devair Alves Ferreira, o dono do ferro-velho que se encantou com o brilho azul da cápsula e a levou para dentro de casa, sobreviveu à fase aguda da Síndrome da Radiação. Sua dose estimada foi de 7,0 Gy — a mais alta entre os sobreviventes. Os médicos acreditam que ele resistiu porque, ao contrário das vítimas fatais, sua exposição foi fracionada: ele passava longos períodos fora de casa, trabalhando ou em bares, o que deu ao seu organismo pequenas janelas de recuperação celular.
A sobrevivência física, no entanto, não o poupou do colapso psicológico. Devair carregou pelo resto da vida o peso de ter sido o vetor involuntário da contaminação que matou sua esposa, Maria Gabriela, e sua sobrinha, a pequena Leide das Neves. Afundado em depressão e alcoolismo, ele faleceu em 12 de maio de 1994, aos 43 anos, vítima de cirrose hepática. Sua certidão de óbito não menciona “radiação”, mas todos que acompanharam sua trajetória sabem que o Césio-137 o matou — apenas de forma mais lenta e cruel.
Os Números da Contaminação
Os dados oficiais da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) , compilados entre 30 de setembro e 20 de dezembro de 1987, dimensionam a escala do acidente:
- 112.800 pessoas foram monitoradas no Estádio Olímpico e em postos de triagem.
- 1.000 pessoas foram classificadas como “irradiadas externamente” — ou seja, receberam doses de radiação gama emitida pela fonte ou por superfícies contaminadas, mas sem incorporar o material radioativo ao organismo. Destas, 97% receberam doses entre 0,2 e 10 mSv — o equivalente a uma ou algumas radiografias de tórax.
- 249 pessoas foram contaminadas externa e internamente — ou seja, tiveram contato direto com o pó de Césio-137 e o incorporaram ao organismo por ingestão, inalação ou absorção cutânea.
- 49 pessoas precisaram ser internadas para descontaminação e tratamento.
- 21 pacientes exigiram atendimento intensivo — com isolamento, transfusões, antibióticos e administração do Azul da Prússia.
- 10 vítimas apresentaram estado extremamente grave, com falência da medula óssea e risco iminente de morte. Quatro delas não resistiram.
A Controvérsia das Mortes Tardias
A Associação das Vítimas do Césio-137 contesta os números oficiais. Segundo a entidade, até setembro de 2012 — quando o acidente completou 25 anos — mais de seis mil pessoas haviam sido atingidas de alguma forma pela radiação, e pelo menos 60 já haviam morrido em decorrência de complicações atribuídas à exposição ao Césio-137.
O poder público — nas esferas federal, estadual e municipal — refuta esses números. A divergência se deve, em grande parte, à dificuldade de estabelecer um nexo causal definitivo entre a exposição à radiação e o desenvolvimento de doenças como câncer, leucemia, problemas cardiovasculares e distúrbios hormonais décadas depois. Em termos epidemiológicos, é quase impossível afirmar com certeza que um determinado caso de câncer em um ex-contaminado foi causado pelo Césio-137 e não por outros fatores ambientais, genéticos ou comportamentais.
O Depoimento do Médico
Em entrevista concedida ao Jornal Opção (edição nº 1849, de 12 a 18 de dezembro de 2010), o médico Zacharias Calil, então superintendente da Suleide (entidade de assistência às vítimas), ofereceu um testemunho clínico contundente sobre os efeitos de longo prazo da exposição:
“Pude comprovar, clinicamente, que determinadas doenças apareceram mais cedo. Um exemplo é a hipertensão arterial, a osteoporose e a hipertrofia de próstata. Uma doença que poderia aparecer por volta dos 50 ou 60 anos foi antecipada aos 30 ou 35.”
A declaração de Calil aponta para um fenômeno conhecido na radiobiologia como “envelhecimento precoce” ou “antecipação de morbidades” : a radiação ionizante acelera o processo de degradação celular e tecidual, fazendo com que doenças típicas da terceira idade se manifestem décadas antes do esperado.
O Terreno do Ferro-Velho: Uma Propriedade Silenciosa
O lote onde funcionava o ferro-velho de Devair Alves Ferreira, na Rua 26-A, Setor Aeroporto — o epicentro físico da tragédia — não pertencia a Devair. O terreno era, e segundo registros imobiliários ainda é, propriedade do grupo liderado pelo empresário paulista Lourival Louza Júnior.
Radicado em Goiânia e detentor do título honorífico de Cidadão Goiano, Louza foi um dos pioneiros que, nas décadas de expansão da capital, adquiriram grandes extensões de terra apostando na valorização imobiliária. Sua carteira de imóveis incluía, além do lote do Setor Aeroporto, a vasta área na divisa com o Jardim Goiás onde, anos mais tarde, seria erguido o Shopping Flamboyant — um dos maiores e mais sofisticados centros comerciais do Centro-Oeste brasileiro.
Ao contrário do que o senso comum poderia supor, o ferro-velho funcionava como um ponto de comércio informal em um terreno privado, provavelmente alugado ou simplesmente ocupado com a tolerância tácita do proprietário — uma prática comum em áreas urbanas ainda não consolidadas.
Ao longo das décadas que se seguiram ao acidente, o grupo empresarial de Lourival Louza Júnior optou por não se pronunciar publicamente sobre a ligação histórica do imóvel com a tragédia do Césio-137. O silêncio corporativo contrasta com a memória coletiva da cidade, que jamais esquecerá que foi naquele lote — hoje limpo, silencioso e aparentemente comum — que o brilho azul da morte fascinou e destruiu tantas vidas.
Conclusão: A Tragédia que Começou no Abandono
O que essa reconstrução deixa evidente é que o acidente com o Césio-137 não foi um evento repentino. Foi um processo — iniciado no abandono de 1985, acelerado pela curiosidade humana em setembro de 1987 e consolidado pela demora institucional em reconhecer o perigo. Por 16 dias, o material circulou livremente por ruas, casas e corpos sem que nenhum alarme soasse. Quando o caso finalmente ganhou nome, equipes e manchetes, a maior parte do dano já estava feita.
Goiânia continuou funcionando porque não sabia o que estava enfrentando. E essa é a lição mais dura da tragédia: o perigo mais letal é, muitas vezes, aquele que não conseguimos ver. O Césio-137 matou quatro pessoas diretamente. Mas seu legado de sofrimento se estende por gerações — nas vítimas que ainda frequentam o Centro de Assistência ao Radioacidentado (C.A.R.A.) , nos 3.500 metros cúbicos de rejeitos que repousam sob o concreto de Abadia de Goiás, e na memória de uma cidade que aprendeu, da pior forma possível, que o brilho azul da curiosidade pode ser o prenúncio da morte.
Referências
Documentos Oficiais:
- INTERNATIONAL ATOMIC ENERGY AGENCY. The Radiological Accident in Goiânia. Vienna: IAEA, 1988. (STI/PUB/815).
- BRASIL. Comissão Nacional de Energia Nuclear. Relatório do Acidente Radiológico de Goiânia. Rio de Janeiro: CNEN, 1988.
- BRASIL. Superintendência Regional do Departamento de Polícia Federal em Goiás. *Inquérito Policial nº 157/SR/DPF/GO* (Relatório Final, 20 de novembro de 1987). Arquivo Nacional, Fundo DPF.
- BRASIL. Justiça Federal – 3ª Vara da Seção Judiciária de Goiás. *Processo nº 92.00.00000-0* (Sentença de 29 de julho de 1992).
Artigos Acadêmicos:
- POZZOBON, Thayse Cristine. Responsabilidade penal da pessoa jurídica aplicada ao incidente radioativo de Goiânia. Revista Justiça e Sistema Criminal, Curitiba, v. 10, n. 18, p. 183-200, jan./jun. 2018.
- POZZETTI, Valmir César; GOMES, Wagner Robério Barros. Trinta anos do césio-137: trajetória legal da política nacional brasileira na prevenção de acidentes radioativos. Revista de Direito Ambiental e Socioambientalismo, Salvador, v. 4, n. 1, p. 132-148, jan./jun. 2018.
- SCHUMANN, Berta; BERWIG, Juliane Altmann. O desastre radiológico do Césio-137: lições após 30 anos da sua ocorrência. Direito, Estado e Sociedade, Rio de Janeiro, n. 54, p. 62-86, jan./jun. 2019.
- OKUNO, Emico. Efeitos biológicos das radiações ionizantes: acidente radiológico de Goiânia. Estudos Avançados, São Paulo, v. 27, n. 77, p. 185-200, 2013.
Reportagens e Fontes Jornalísticas:
- CONDENAÇÕES por Césio-137 foram brandas; veja repercussões jurídicas. Migalhas, 13 set. 2017. Disponível em: https://www.migalhas.com.br/quentes/452570/condenacoes-por-cesio-137-foram-brandas-veja-repercussoes-juridicas. Acesso em: 10 abr. 2026.
- O POPULAR. Edições de setembro a dezembro de 1987. Acervo digitalizado.
- DIÁRIO DA MANHÃ. Edições de setembro a dezembro de 1987. Acervo digitalizado.
- Revista Césio 25 anos. https://goias.gov.br/saude/wp-content/uploads/sites/34/2023/11/revista-cesio-25-anos.pdf
