Economia / Politica · abril 7, 2026

Acidente com Césio-137 em Goiânia: a tragédia que começou antes de virar notícia

O acidente com Césio-137 em Goiânia, em 1987, foi o maior desastre radiológico urbano do mundo. Mais de 112 mil pessoas foram monitoradas, 249 contaminadas e quatro morreram após o contato com um material radioativo abandonado.

Mas a tragédia não começou naquele setembro.

Ela começou antes, com abandono, desorganização e falhas no controle de um material que nunca deveria ter sido deixado sem vigilância.

Goiânia não foi vítima de um acidente radiológico. Foi vítima de abandono.

A tragédia do Césio-137 em Goiânia é um dos maiores acidentes radiológicos da história, mas a forma como costuma ser contada carrega um equívoco importante: ela não começou em setembro de 1987. Na tarde de 29 de setembro daquele ano, o físico Walter Mendes Ferreira acionou um cintilômetro no pátio da Vigilância Sanitária, e a agulha disparou. Em poucas horas, o que parecia um surto estranho revelou algo muito maior, e muito mais antigo. O acidente com Césio-137 em Goiânia já estava em curso havia dias, talvez anos, apenas ainda não havia sido reconhecido.

O que torna esse episódio singular é sua natureza silenciosa. Ao contrário de Chernobyl, não houve explosão, nem nuvem visível, nem qualquer sinal imediato de perigo. A radiação estava ali, presente, mas invisível. Veio disfarçada em um pó azul de aparência quase fascinante, sem cheiro e sem dor imediata. Essa característica foi decisiva: o risco não parecia risco, e por isso pôde circular livremente por ruas, casas e corpos durante dezesseis dias.

Mas o estopim havia sido aceso antes. Em 1985, o Instituto Goiano de Radioterapia mudou de endereço e deixou para trás, em um prédio abandonado, um equipamento de teleterapia. Dentro dele estavam 19,26 gramas de Césio-137, com atividade de 50,9 TBq, uma quantidade suficiente para causar danos graves e até fatais. O material estava na forma de cloreto de césio, altamente solúvel, o que aumentava ainda mais o potencial de contaminação. Não era apenas perigoso, era facilmente dispersável.

Em setembro de 1987, catadores de sucata romperam a blindagem do equipamento. Não sabiam o que estavam abrindo. O material foi levado a um ferro-velho, onde chamou a atenção de Devair Alves Ferreira pelo brilho azul visível no escuro. Aquilo, que deveria estar isolado e protegido, passou a ser tratado como curiosidade. A “pedra brilhante” foi exibida, tocada e distribuída entre familiares e vizinhos. O contato se ampliou sem qualquer consciência do risco. Leide das Neves Ferreira, de apenas seis anos, ingeriu o material ao levar as mãos à boca, um gesto simples que a colocou no centro de uma tragédia irreversível.

Os primeiros sintomas não geraram alarme imediato. Náuseas, vômitos e tonturas foram interpretados como viroses comuns. Esse erro de leitura foi decisivo, porque permitiu que a contaminação continuasse avançando enquanto ainda parecia algo cotidiano. O problema não estava apenas no material radioativo, mas na incapacidade de reconhecê-lo a tempo. A virada ocorreu quando Maria Gabriela Ferreira, desconfiada, levou a peça à Vigilância Sanitária. Foi então que a medição realizada por Walter Mendes Ferreira confirmou a presença de radiação, transformando uma suspeita difusa em um diagnóstico incontornável.

Ao final, 249 pessoas foram contaminadas, 20 apresentaram quadros graves e quatro morreram, incluindo Leide. Mais de 100 mil pessoas precisaram ser examinadas, e cerca de 3.500 metros cúbicos de rejeitos radioativos foram gerados. Os números são expressivos, mas não explicam o essencial. O acidente com o Césio-137 em Goiânia não foi um evento isolado, mas o resultado de uma cadeia de omissões: abandono institucional, falhas de fiscalização, ausência de protocolos claros e desinformação.

Para compreender o que realmente aconteceu, é preciso voltar antes do momento em que tudo se tornou visível. Voltar a dezembro de 1985, quando o equipamento foi deixado para trás. A tragédia não começou quando a cápsula foi aberta, nem quando o cintilômetro disparou. Começou quando o risco deixou de ser responsabilidade de alguém e passou a ser problema de ninguém.

O Césio não foi o início. Foi apenas o momento em que o abandono se tornou impossível de ignorar.

Infográfico de 13 a 29 de setembro mostrando passo a passo a dinâmica do acidente radiológico. IAEA, VIENA 1988
Infográfico de 13 a 29 de setembro mostrando passo a passo a dinâmica do acidente radiológico. IAEA, VIENA 1988

A origem do maior acidente radiológico urbano do mundo não está numa explosão, mas em um labirinto jurídico somado a uma omissão burocrática.

Em dezembro de 1985, o Instituto Goiano de Radioterapia mudou-se para novas instalações na Rua 1-A, nº 305. O aparelho de Césio-137, modelo Cesapan F-3000, ficou para trás, na antiga sede da Avenida Paranaíba. A desativação da fonte nunca foi comunicada à Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), como exigia a legislação. Dentro dele permaneciam 50,9 terabecqueréis de radiação, sem controle, sem vigilância, sem qualquer tipo de proteção efetiva.

O imóvel iniciou então uma peregrinação silenciosa. Pertencia à Conferência de São Vicente de Paulo, ligada à Santa Casa, e foi vendido ao Instituto de Previdência e Assistência dos Servidores do Estado de Goiás (IPASGO) em 1984. A intenção era construir um hospital. O problema é que o Instituto Goiano de Radioterapia ainda ocupava o prédio com contrato vencido. A ação de despejo se arrastou por anos.

Enquanto isso, o imóvel foi sendo progressivamente desmontado. O ex-proprietário, Amaurillo Monteiro de Oliveira, enviou funcionários para retirar telhas, janelas e portas. Sem vigilância e sem definição clara de responsabilidade, o prédio deixou de ser uma estrutura funcional e passou a ser uma carcaça aberta.

Em abril de 1987, a Justiça concedeu a posse ao IPASGO. Oficiais de justiça entraram no local e registraram em auto que o imóvel estava “abandonado, sem nenhum bem”. O registro estava correto, dentro do que era visível. O que não foi percebido — escondido atrás de uma porta metálica, ao fundo de um corredor — era a casamata que ainda guardava a cápsula de Césio-137.

Ali, no centro de um conflito administrativo e jurídico, o material radioativo permaneceu esquecido. Sem registro ativo, sem isolamento, sem responsável direto.

O perigo não chegou de fora.
Ele foi deixado para trás.

E permaneceu ali por mais cinco meses.

Parte de trás do prédio abandonado do Instituto Instituto Goiano de Radioterapia, 1987.
Parte de trás do prédio abandonado do Instituto Instituto Goiano de Radioterapia, 1987.

O Setor Aeroporto, naquele setembro de 1987, era o retrato de uma Goiânia que crescia mais rápido do que sua capacidade de organização. A expansão urbana avançava sobre um território onde leis e fiscalização não acompanhavam o ritmo da ocupação. Muitos lotes tinham proprietários ausentes, aguardando valorização, enquanto, na prática, eram ocupados por uma colcha de retalhos formada por oficinas improvisadas e residências humildes.

Ali, moradia e trabalho se confundiam. O ferro-velho de Devair não era um negócio formalizado, mas um espaço nos fundos de casa, onde a família triava sucata para sobreviver. Na casa de Roberto, na Rua 57, puxadinhos e barracões abrigavam múltiplas famílias no mesmo terreno, sem contrato, sem registro, sem qualquer proteção jurídica. Eram pessoas fora da cidade formal, mas plenamente inseridas na cidade real.

Somava-se a isso um analfabetismo que ia além da leitura: técnico e informacional. Ninguém ali tinha repertório para reconhecer o símbolo de radiação ou suspeitar que um equipamento hospitalar pudesse representar risco. Diante desse cenário, o comportamento não foi irracional, foi coerente. Em um ambiente onde o valor é definido pela utilidade imediata, o chumbo vira dinheiro, e um pó brilhante pode parecer raro ou valioso.

A informalidade urbana não causou o acidente, a causa foi o abandono institucional do Instituto Goiano de Radioterapia e a falha de controle dos órgãos competentes. Mas ela funcionou como vetor de amplificação. Foi nesse contexto, marcado pela ausência de informação, regulação e proteção social, que o Césio-137 encontrou condições ideais para se espalhar.

E foi essa mesma população, já exposta a múltiplas vulnerabilidades, quem pagou o preço mais alto: na saúde, nas casas, nos pertences, nos vínculos e, por fim, na própria identidade social. Muitos passaram a ser tratados como se fossem eles próprios a contaminação, rejeitados por uma sociedade que, até então, sequer os enxergava.

Na manhã de domingo, 13 de setembro de 1987, Wagner Mota Pereira e Roberto dos Santos Alves entraram nas ruínas do antigo Instituto Goiano de Radioterapia. À época, foram frequentemente retratados como invasores ou ladrões. Na prática, porém, enxergaram naquele prédio abandonado uma oportunidade de obter algum dinheiro com a venda de metal.

Cabe aqui uma correção histórica importante: Wagner e Roberto não eram catadores profissionais, como muitas narrativas posteriores passaram a afirmar. Eles apenas identificaram, naquele contexto de abandono, uma possibilidade imediata de ganho a partir de materiais que pareciam sem dono.

No interior do imóvel, depararam-se com um equipamento pesado e complexo, uma unidade de teleterapia. Sem qualquer conhecimento técnico sobre sua função, iniciaram a desmontagem utilizando ferramentas simples. Conseguiram remover o conjunto giratório, justamente a parte que continha a fonte radioativa, e o transportaram em um carrinho de mão até a casa de Roberto, na Rua 57, a cerca de 850 metros de distância.

Carrinho de Mão usado por Wagner e Roberto para transportar o equipamento.

É importante observar que, nesse momento, a cápsula de Césio-137 ainda permanecia íntegra dentro de sua blindagem de chumbo e aço. Nenhuma evidência de contaminação foi posteriormente identificada nas instalações do antigo instituto, o que indica que o material radioativo ainda não havia sido liberado no ambiente.

No quintal da casa de Roberto, sob uma mangueira, iniciou-se a desmontagem da peça. Utilizando chaves de fenda e marretas, tentavam separar o chumbo, que acreditavam ter valor comercial, do restante da estrutura. A tarefa era difícil e exigia esforço contínuo.

Em algum momento desse processo, Wagner conseguiu perfurar a janela de 1 mm da cápsula de aço inoxidável. Introduziu uma chave de fenda e retirou uma pequena quantidade de um pó escuro. Sem reconhecer o material, supôs tratar-se de pólvora e tentou incendiá-lo, sem sucesso.

Rua 57, Goiânia. Técnicos monitoram a contaminação no quintal da casa do catador Roberto dos Santos Alves, onde o Césio-137 foi liberado pela primeira vez. A mangueira ao fundo absorveu radiação pelas raízes e foi arrancada como rejeito radioativo.

Horas depois, Wagner começou a sentir náuseas e vômitos. Roberto apresentou sintomas semelhantes. Ambos atribuíram o mal-estar a algo que haviam ingerido. Não havia ferimentos visíveis, apenas tontura e um leve inchaço na mão de Wagner — sinais iniciais compatíveis com exposição à radiação ionizante, ainda sem reconhecimento clínico naquele momento.

O que eles não sabiam — e não tinham como saber — é que a exposição ocorria de forma invisível. Dias depois, seria percebido o brilho azul emitido pelo material no escuro, um fenômeno físico associado à interação da radiação com o ambiente. Naquele instante, porém, o processo já estava em curso, silencioso e cumulativo.

Cabeçote que protegia a cápsula com as 19 gramas de césio-137 puro.

Desenho da unidade de teleterapia Cesapan F-3000, projetado pela empresa italiana Barazetti and Company, com sede em Milão, na década de 1950, e comercializado no Brasil pela Generay SpA.
“Comecei a passar mal, vomitar e minha mão ficou ferida. Achei que era alguma coisa que eu tinha comido.”
— Wagner Mota Pereira

Na segunda-feira, 14 de setembro, o quadro clínico de Wagner Mota Pereira se agravou. Às náuseas e vômitos somaram-se episódios de diarreia e tontura. Sua mão esquerda, que havia sido posicionada sobre a abertura do feixe de radiação durante a tentativa de desmontagem da peça, passou a apresentar inchaço visível — um edema compatível com queimadura actínica aguda.

Apesar da intensidade dos sintomas, a causa permanecia oculta. Wagner buscou atendimento médico, mas recebeu o mesmo diagnóstico que se repetiria nos dias seguintes: reação alérgica ou intoxicação alimentar. Orientado a repousar, voltou para casa, onde permaneceu ao longo da semana em progressiva piora, já sem condições de trabalhar.

Enquanto o organismo reagia à exposição, a peça permanecia no quintal da casa de Roberto dos Santos Alves, na Rua 57. Ainda não havia sido vendida. Ficaria ali por mais quatro dias, sob uma mangueira, enquanto tentativas intermitentes de desmontagem continuavam, sempre sem sucesso na extração do chumbo.

Há um detalhe técnico relevante, descrito em relatórios da Agência Internacional de Energia Atômica. Nesse estágio, a cápsula de Césio-137 já havia sido perfurada, mas a fonte principal ainda não havia sido completamente removida de seu invólucro. A chamada “janela”, com cerca de 1 mm, estava rompida, permitindo a liberação de pequenas quantidades de material radioativo, enquanto a maior parte ainda permanecia contida. A contaminação ambiental significativa ocorreria apenas nos dias seguintes, com o avanço da desmontagem.

O processo de adoecimento já estava em curso, mas a cidade — e o país — continuavam alheios. Não havia alerta, isolamento ou suspeita. Havia apenas um homem doente em casa, com a mão inchada, enquanto uma cápsula de Césio-137 permanecia sob uma mangueira, aguardando ser vendida como sucata.

Na terça-feira, 15 de setembro, Wagner Mota Pereira retornou ao médico. As lesões em sua mão estavam mais evidentes — o edema havia evoluído para uma inflamação perceptível — e os episódios de vômito persistiam, deixando-o progressivamente mais debilitado. O diagnóstico, no entanto, foi mantido: reação alérgica severa ou intoxicação alimentar. A hipótese de exposição à radiação, um evento completamente fora do repertório clínico de um pronto-socorro comum, não foi sequer considerada. Wagner foi novamente orientado a repousar. Permaneceria de cama por quase uma semana, já sem condições de trabalhar.

Esse é um ponto de inflexão silencioso da tragédia. Enquanto Wagner convalescia em casa, acreditando tratar-se de um problema alimentar, a peça radioativa permanecia no quintal de Roberto dos Santos Alves. Nos dias seguintes, Roberto continuou, sozinho e de forma intermitente, tentando desmontar o conjunto giratório para extrair o chumbo. Foi nesse intervalo, entre 15 e 18 de setembro, que conseguiu remover a roda da fonte de dentro da blindagem, expondo a cápsula de Césio-137 de maneira mais direta e significativamente mais perigosa.

A não identificação da causa real produziu duas consequências críticas. Primeiro, retardou qualquer resposta médica especializada, ampliando o intervalo entre a exposição inicial e o reconhecimento técnico do acidente. Segundo, permitiu que o material continuasse sendo manipulado. A peça não foi isolada; ao contrário, avançou no processo de desmontagem e se aproximava do momento em que seria tratada como sucata comum.

Do lado de fora, Goiânia seguia sua rotina. O comércio funcionava, as escolas permaneciam abertas, o trânsito fluía. O acidente ainda não tinha nome, nem rosto, nem qualquer forma de alerta. Crescia em silêncio, ao mesmo tempo, no quintal de uma casa na Rua 57 e no corpo de um homem que acreditava ter ingerido algo estragado.

Na quarta-feira, 16 de setembro, a peça continuava no quintal da casa de Roberto dos Santos Alves, sendo tratada exatamente como aparentava ser: sucata. Com Wagner Mota Pereira acamado e debilitado por um processo ainda não identificado, Roberto seguia sozinho na desmontagem do conjunto giratório. Seu objetivo era direto e comum a milhares de trabalhadores informais no Brasil: separar o chumbo, um metal de boa comercialização, do aço inoxidável que o revestia.

Munido de ferramentas improvisadas, como chaves de fenda, alicates e uma marreta, Roberto aplicava a lógica prática da reciclagem: abrir, cortar, separar, aproveitar. Cada intervenção na blindagem aumentava sua exposição ao feixe de radiação gama que já escapava da cápsula perfurada. A tarefa era difícil; o chumbo não cedia com facilidade. Ainda assim, nada naquela cena indicava perigo. Não havia fumaça, não havia cheiro, não havia dor imediata. Havia apenas um homem tentando extrair valor de um material que parecia abandonado.

É essa normalidade que sustenta a progressão da tragédia. Enquanto Roberto trabalhava no quintal, Goiânia seguia sua rotina. O comércio abria, os ônibus circulavam, as escolas funcionavam. Nenhuma autoridade foi acionada, nenhum alerta foi emitido, nenhuma notícia foi publicada — não por negligência, mas porque o acidente ainda não existia como fato reconhecido. Permanecia restrito a um espaço doméstico, evoluindo silenciosamente dentro de uma peça de metal que, em poucos dias, seria tratada como sucata comum.

A contaminação ainda não havia ultrapassado os limites daquele quintal. Mas as condições para isso já estavam estabelecidas — construídas, pouco a pouco, a cada tentativa de desmontagem.

Na quinta-feira, 17 de setembro, a situação na casa de Roberto dos Santos Alves, na Rua 57, atingiu um ponto de virada logístico. Com Wagner Mota Pereira debilitado — os vômitos e as lesões nas mãos já o impediam de qualquer esforço físico —, a responsabilidade sobre o destino da peça recaiu inteiramente sobre Roberto. Após dias de trabalho intermitente, ele havia conseguido separar o chumbo da estrutura de aço. O material estava, aos seus olhos, pronto para ser comercializado.

Mas o quintal onde essa desmontagem ocorria não era um espaço isolado. No mesmo lote viviam outras pessoas, distribuídas em barracões independentes, compartilhando o mesmo terreno, a mesma circulação de objetos, o mesmo ambiente. Eram famílias inteiras expostas, sem qualquer consciência do risco, que acabariam carregando, por toda a vida, as consequências daquele contato invisível.

Até aquele momento, o risco estava geograficamente confinado. A contaminação, ainda que intensa no local onde a cápsula foi perfurada, restringia-se ao quintal e ao interior das moradias ali presentes. A partir da decisão de vender a peça, esse cenário mudou. O conjunto giratório — já sem parte de sua blindagem original — entrou na cadeia informal de circulação de sucatas, um sistema que opera sem registro, sem controle e sem visibilidade institucional.

Os documentos do inquérito policial confirmam que, a partir desse dia, Roberto iniciou contatos para negociar o material. A lógica era estritamente comercial: o valor estava no metal reaproveitável. O “pó brilhante” retirado dias antes era visto apenas como uma curiosidade sem importância, algo que poderia ser descartado ou ignorado.

Esse é um dos pontos mais marcantes da cronologia: primeiro veio o dano, depois veio a compreensão. Enquanto os corpos de Wagner e Roberto reagiam à exposição sem diagnóstico, a fonte que os havia contaminado estava prestes a ser colocada em circulação como uma mercadoria comum.

Relatórios da Agência Internacional de Energia Atômica indicam que, embora os principais focos de contaminação tenham permanecido dentro do perímetro urbano de Goiânia, houve deslocamentos de materiais e pessoas contaminadas para municípios vizinhos, como Anápolis e a Cidade de Goiás. Esses movimentos exigiram um esforço extensivo de rastreamento por parte das equipes da CNEN, que precisaram localizar e recuperar fragmentos já vendidos, trocados ou distribuídos.

A partir de 17 de setembro, o Césio-137 deixou de ser um problema restrito a um quintal. Entrou na economia invisível da sucata e, com ela, iniciou sua dispersão silenciosa pela cidade.

“Parecia uma pedra preciosa. Era a coisa mais bonita que eu já tinha visto. Nunca imaginei que aquilo pudesse fazer mal.”
— Devair Alves Ferreira

O dia 18 de setembro marcou o ponto de inflexão geográfica do acidente. Com Wagner Mota Pereira acamado e sem condições de trabalhar, Roberto dos Santos Alves assumiu sozinho a negociação. Ele foi até o ferro-velho de Devair Alves Ferreira, localizado na Rua 26-A, no Setor Aeroporto, e vendeu os pedaços do conjunto giratório — já desprovidos de parte da blindagem de chumbo — como sucata comum. Para transportar o material pesado, Roberto pediu um carrinho de mão emprestado ao próprio Devair (foto abaixo).

Devair Alves Ferreira, 1987.

O acordo foi fechado ali mesmo. Roberto retornou à casa na Rua 57 com o carrinho e, com a ajuda de Geraldo Guilherme da Silva, funcionário do ferro-velho, transportou a peça até o estabelecimento de Devair. A partir desse momento, o material radioativo deixou o ambiente doméstico e passou a integrar a cadeia comercial da sucata.

Já no ferro-velho, a peça foi colocada na área coberta. A blindagem remanescente — o chumbo que ainda oferecia alguma proteção à fonte — passou a ser removida de forma progressiva pelos trabalhadores do local, motivados pelo valor do metal. A cada camada retirada, a proteção diminuía e o nível de exposição à radiação gama aumentava de forma significativa.

Área associada à cadeia informal de sucata por onde o material radioativo passou a circular.

Ainda assim, o ponto mais crítico não havia sido atingido. A ruptura completa da cápsula e a liberação significativa do pó de Césio-137 ocorreriam apenas três dias depois, em 21 de setembro. Até então, a fonte permanecia parcialmente contida.

Contudo, já na noite do dia 18, surgiu o sinal mais enganoso de todo o processo. Ao entrar na área coberta do ferro-velho, no escuro, Devair notou algo incomum: do interior da peça emanava um brilho azulado intenso. O fenômeno, associado à interação da radiação com o ambiente, produzia um efeito visual marcante. Para ele, aquilo não indicava perigo; sugeria valor, algo raro ou incomum. Movido por essa percepção, levou a cápsula para dentro de sua casa.

Esse momento alterou a dinâmica do acidente. O que deveria gerar afastamento provocou aproximação. A partir daquela noite, o material passou a ser exibido a vizinhos, parentes e conhecidos como uma curiosidade. Iniciava-se, ali, a fase mais crítica da tragédia: a ampliação da exposição para além do ambiente inicial.

“Expostos a radiação as pessoas contaminadas vão perdendo a imunidade. As células vão enfraquecendo, arrebenta com as cadeias de DNA; cessa a produção de proteínas…”
— Walter Mendes Ferreira

No sábado, 19 de setembro, o epicentro da tragédia se consolidou no ferro-velho de Devair Alves Ferreira, na Rua 26-A. O que até então era uma operação de desmonte de sucata passou a assumir outra dinâmica. Na noite anterior, Devair havia observado o brilho azulado que emanava da cápsula no escuro. O fenômeno, resultante da interação da radiação com o ambiente, chamou sua atenção. Não foi percebido como ameaça, mas como algo incomum, possivelmente valioso. Movido por essa impressão, levou a cápsula para dentro de casa.

A partir da manhã de sábado, seu comportamento alterou o curso do acidente. Devair passou a convidar vizinhos, familiares e conhecidos para ver a “pedra brilhante”. A cápsula metálica, que ele comparava a uma “marmita” ou a um “queijo”, continha um material que, sob a luz, apresentava aparência granulada e reflexiva. O conteúdo passou a ser aberto, tocado e observado de perto por um número crescente de pessoas.

Frente do Ferro Velho III no Jardim América durante o processe de descontaminação total da área.

Entre os primeiros visitantes estavam Ernesto Fabiano e seu irmão, Edson Fabiano. Foi nesse momento que pequenas quantidades do material começaram a ser distribuídas. Ernesto recebeu alguns grãos, de aspecto semelhante ao de pequenos cristais, que se desagregavam facilmente em pó, e os guardou no bolso da calça. Edson também levou uma porção para casa. Ambos, atraídos pelo brilho, manipularam o material diretamente sobre a pele.

A esposa de Devair, Maria Gabriela Ferreira, e seu irmão, Ivo Alves Ferreira, também tiveram contato direto com o material nesse dia. Ernesto, particularmente interessado, raspou mais fragmentos da cápsula com uma chave de fenda, ampliando sua exposição. A contaminação, que até então estava concentrada no objeto, passou a circular entre pessoas, atravessando ambientes domésticos e ampliando rapidamente sua área de alcance.

Maria Gabriela Ferreira esposa de Devair durante entrevista à TV Anhanguera.

Este é o ponto de virada epidemiológico: a contaminação deixou de ser um evento restrito à exposição direta de poucos indivíduos e passou a configurar uma cadeia social de disseminação. O ferro-velho de Devair deixou de ser apenas um local de trabalho e tornou-se um ponto de encontro, onde o material era exibido, compartilhado e circulava entre pessoas como um objeto de curiosidade. A tragédia, ainda sem nome e sem diagnóstico, expandia-se de forma silenciosa por meio de vínculos de convivência e proximidade.

Nesse mesmo dia, os sintomas em Wagner Mota Pereira e Roberto dos Santos Alves persistiam, mas a avaliação médica ainda não estabelecia qualquer relação com o material manipulado. A cidade seguia sua rotina, alheia ao fato de que uma fonte de Césio-137 estava sendo manuseada sem proteção em um ferro-velho no Setor Aeroporto.

No domingo, 20 de setembro, o ferro-velho de Devair Alves Ferreira já havia assumido uma nova dinâmica. A cápsula de Césio-137, agora praticamente desprovida de sua blindagem original, encontrava-se dentro da casa da família, na Rua 26-A. O material, que à noite apresentava um brilho azulado intenso, continuava a ser exibido como curiosidade. Não havia qualquer barreira física ou percepção de risco: era tocado, observado e compartilhado como um objeto incomum.

A ausência de sinais imediatos — sem calor, sem fumaça, sem odor — eliminava qualquer associação com perigo. O que hoje parece incompreensível era, naquele contexto de desinformação, um comportamento coerente diante do desconhecido.

Nesse dia, a distribuição de pequenas quantidades do material se intensificou. Devair entregou porções ao irmão, Ivo Alves Ferreira, que levou o conteúdo para sua residência, na Rua 6, no Setor Norte Ferroviário — local que se tornaria um segundo foco relevante de contaminação. Ali, o material passou a circular em ambiente doméstico, inclusive durante atividades cotidianas como as refeições.

Paralelamente, os fragmentos recebidos por Ernesto Fabiano no dia anterior já estavam em sua residência, na Rua 17-A. Atraído pelo efeito visual, ele manteve o material em um móvel doméstico e o manipulou diretamente sobre a pele. Seu irmão, Edson Fabiano, repetiu o comportamento em sua própria casa, ampliando a área de exposição.

Relatórios da Agência Internacional de Energia Atômica registram que, nesse período, houve múltiplos casos de contato direto do material com a pele, em um contexto de total desconhecimento do risco. Esse padrão de comportamento contribuiu para o surgimento de lesões cutâneas severas e, em alguns casos, ingestão acidental.

A partir desse momento, a contaminação deixou de estar associada a um único local. Passou a se distribuir entre diferentes residências, acompanhando relações de convivência e circulação cotidiana. A cidade seguia sua rotina, sem qualquer percepção de que o material já havia ultrapassado os limites iniciais e se encontrava presente em múltiplos ambientes domésticos.

A segunda-feira, 21 de setembro, marca o momento em que o acidente radiológico de Goiânia mudou de natureza e de escala. Até então, a cápsula de Césio-137, embora já comprometida, ainda mantinha parte de sua integridade estrutural. Foi nesse dia que a manipulação no ferro-velho de Devair Alves Ferreira atingiu seu ponto mais crítico.

Ernesto Fabiano, amigo de Devair, esteve no local e, com o auxílio de uma chave de fenda, removeu pessoalmente novos fragmentos da cápsula. Eram pequenas partículas, de aspecto granular, que se desagregavam facilmente em pó. Parte desse material foi entregue ao irmão, Edson Fabiano, e o restante levado para sua residência, na Rua 17-A. Foi nesse movimento que a contaminação alcançou o que posteriormente seria identificado como o foco conhecido como “Casa da Fossa”.

O local passou a atrair um fluxo crescente de pessoas. A informação sobre o “pó brilhante” circulou rapidamente pela vizinhança, e indivíduos fora do núcleo familiar começaram a frequentar o ferro-velho. O que inicialmente era curiosidade transformou-se em prática recorrente: observar, tocar e levar pequenas quantidades do material. Em diversos casos, o contato ocorreu diretamente sobre a pele, ampliando o nível de exposição.

Nesse momento, o acidente deixa de ser um evento localizado e passa a configurar uma cadeia ativa de disseminação social. O material ultrapassa o ferro-velho e se estabelece em múltiplas residências, incluindo as de Ivo Alves Ferreira (Rua 6) e dos irmãos Fabiano (Rua 17-A). A partir dessas conexões, a circulação se amplia por meio de visitas e deslocamentos cotidianos, alcançando outros bairros e, posteriormente, municípios vizinhos.

Paralelamente, surgem os primeiros sinais clínicos em diferentes núcleos familiares. Maria Gabriela Ferreira, esposa de Devair, procura atendimento no Hospital São Lucas com quadro de vômito e diarreia. Ivo Alves Ferreira também apresenta sintomas compatíveis com exposição à radiação, como mal-estar intenso, episódios gastrointestinais persistentes e deterioração progressiva do estado geral. Ainda assim, os casos permanecem sem conexão diagnóstica. Diante da dispersão geográfica e da ausência de referência clínica, os atendimentos continuam sendo interpretados como viroses ou intoxicações alimentares.

Do lado de fora, Goiânia seguia sua rotina. O comércio funcionava, os ônibus circulavam, as relações sociais se mantinham ativas. A contaminação acompanhava exatamente esse mesmo fluxo, deslocando-se pelos mesmos caminhos da vida cotidiana, sem qualquer percepção de risco. A cidade não reagiu porque não sabia que precisava reagir.

Na terça-feira, 22 de setembro, o Césio-137 já não estava mais restrito ao quintal de Roberto ou ao ferro-velho de Devair. O material havia se fragmentado e passava a acompanhar pessoas, roupas e objetos em seus deslocamentos pela cidade. O ferro-velho na Rua 26-A concentrava um fluxo crescente de visitantes. Já não eram apenas familiares e conhecidos próximos. A curiosidade ultrapassara esse limite: trabalhadores da região, conhecidos de conhecidos e até pessoas sem vínculo direto com o local, atraídas pelos relatos que circulavam, passaram a frequentar o espaço. Observavam, tocavam e, em muitos casos, levavam pequenas quantidades do material para outros ambientes.

Paralelamente, a contaminação doméstica se aprofundava. Nas residências de Ivo Alves Ferreira (Rua 6, Setor Norte Ferroviário) e de Ernesto Fabiano (Rua 17-A), o material já estava incorporado ao cotidiano. Superfícies, roupas e utensílios acumulavam partículas invisíveis. Pessoas que haviam tido contato direto retornavam às suas rotinas, transportando o contaminante para outros espaços e ampliando gradualmente sua área de alcance.

Os primeiros sinais clínicos em múltiplos núcleos familiares tornavam-se mais evidentes. Maria Gabriela Ferreira e Ivo Alves Ferreira apresentavam vômitos e diarreia persistentes. Leide das Neves, de seis anos, começava a manifestar os efeitos da ingestão ocorrida dias antes. Ainda assim, os atendimentos permaneciam fragmentados. Cada caso era avaliado de forma isolada, em diferentes unidades de saúde, sem conexão entre si.

Não havia, naquele momento, um reconhecimento de padrão. O problema já apresentava características de disseminação urbana, com múltiplos pontos de exposição, mas ainda não era percebido como um evento único. Goiânia seguia sua rotina, sem qualquer indicação de que uma rede invisível de contaminação já se estendia por diferentes áreas da cidade.

Na quarta-feira, 23 de setembro, dez dias após a remoção do conjunto giratório do prédio abandonado do IGR, o quadro clínico de Wagner Mota Pereira se agravou de forma crítica. Os vômitos, antes episódicos, tornaram-se intensos e persistentes. A fraqueza o impedia de permanecer em pé. As lesões na mão esquerda — que havia sido exposta diretamente durante a tentativa de desmontagem da peça — evoluíram para um edema acentuado, com sinais compatíveis com queimadura profunda.

Sem condições de permanecer em casa, Wagner foi levado e internado no Hospital Santa Rita (também referido em alguns registros como Hospital Santa Catarina). O quadro chamou a atenção da equipe médica pela gravidade e pela rápida progressão. Ainda assim, o repertório clínico disponível naquele momento não incluía a hipótese de exposição à radiação. Diante de sintomas como vômitos, diarreia e lesões cutâneas, as hipóteses levantadas seguiram o padrão esperado: infecção grave ou reação alérgica. O tratamento foi direcionado ao controle dos sintomas, enquanto a causa permanecia desconhecida. Wagner permaneceria internado por alguns dias, sem qualquer medida específica de isolamento radiológico.

Enquanto isso, a dispersão do material radioativo continuava. No ferro-velho de Devair, a manipulação da cápsula prosseguia. Funcionários do local, como Israel Batista dos Santos e Admilson Alves de Souza, mantinham o processo de remoção do chumbo remanescente, ampliando sua exposição à fonte já comprometida. Em paralelo, nas residências de familiares e conhecidos, surgiam sintomas semelhantes — vômitos, diarreia e mal-estar —, mas os atendimentos permaneciam fragmentados. Cada grupo buscava assistência em locais distintos, sem que houvesse conexão entre os casos.

O acidente avançava mais rápido do que a capacidade do sistema de reconhecê-lo. Não havia alerta público, diagnóstico unificado ou qualquer medida de contenção. A contaminação seguia seu curso, silenciosa e dispersa, já estabelecida em múltiplos pontos da cidade.

Na quinta-feira, 24 de setembro, os efeitos cumulativos da exposição à radiação começaram a se manifestar de forma evidente em Devair Alves Ferreira. O homem que havia se encantado com o brilho da cápsula passou a apresentar queda acentuada de cabelo, alterações na pele e perda do paladar — sinais compatíveis com exposição significativa à radiação ionizante.

Mas o evento mais marcante desse dia não envolveu diretamente Devair, e sim seu irmão, Ivo Alves Ferreira. Conforme os autos do inquérito policial, Ivo esteve no ferro-velho da Rua 26-A e recebeu de Devair uma porção do material. Levou-o para sua residência — na Rua 6, Quadra Q, Lote 18, no Setor Norte Ferroviário — onde vivia com a esposa, Lourdes das Neves Ferreira, e os filhos.

Há aqui um ponto cronológico relevante, conforme descrito em relatórios da Agência Internacional de Energia Atômica: a ingestão do material por Leide das Neves Ferreira, de seis anos, ocorreu provavelmente nesse período, podendo ter se dado no próprio dia 24 ou nos dias imediatamente anteriores. O que se estabelece com consistência é a forma da exposição. Ao chegar em casa, Ivo colocou o material sobre a mesa durante uma refeição. Leide, atraída pelo brilho, teve contato direto com o conteúdo e, em seguida, alimentou-se. Ao levar o alimento à boca com as mãos contaminadas, ingeriu partículas radioativas.

Esse momento representa um ponto de inflexão na natureza do acidente. A contaminação, que já havia ultrapassado o ambiente inicial, passa a ocorrer também por via interna. O evento deixa de se limitar ao contato externo e passa a envolver ingestão, ampliando significativamente a gravidade das exposições.

Enquanto isso, a cidade permanecia alheia. Não havia alerta público, nem conexão entre os atendimentos médicos que se multiplicavam. Casos de vômito, diarreia e mal-estar continuavam a ser tratados de forma isolada. A contaminação já estava presente em múltiplos ambientes domésticos e em diferentes pessoas, mas ainda não era reconhecida como um evento único.

Na sexta-feira, 25 de setembro, o acidente continuava sua expansão de forma silenciosa. Não houve um evento novo e evidente, mas o agravamento progressivo dos quadros clínicos entre aqueles já expostos nos dias anteriores. A casa de Ivo Alves Ferreira, na Rua 6, tornava-se um dos principais pontos de concentração dos efeitos da contaminação. Sua filha, Leide das Neves, que havia tido contato com o material nos dias anteriores, já apresentava náuseas e fraqueza, sintomas inicialmente atribuídos pela família a uma virose. Maria Gabriela Ferreira também seguia com vômitos e diarreia persistentes, interpretados como intoxicação alimentar.

Registros analisados posteriormente indicam que, nesse período, o Césio-137 já circulava pela cidade por meio de pessoas, roupas e objetos. A fonte permanecia no ferro-velho de Devair, na Rua 26-A, onde continuava a ser manipulada. Trabalhadores do local, como Israel Batista dos Santos e Admilson Alves de Souza, seguiam na remoção da blindagem remanescente, ampliando sua exposição à radiação sem qualquer proteção.

É nesse ponto que se evidencia a limitação do sistema de saúde diante de um evento fora de seu repertório. Diversas pessoas já haviam procurado atendimento em diferentes unidades da cidade, apresentando sintomas semelhantes — vômitos, diarreia e lesões cutâneas. No entanto, os atendimentos eram realizados de forma isolada. Sem integração entre os registros e sem referência prévia de casos de exposição radiológica, os diagnósticos seguiam o padrão mais provável: infecção gastrointestinal ou reação alérgica. O acidente avançava mais rápido do que a capacidade de reconhecê-lo.

Do lado de fora, Goiânia mantinha sua rotina. Os jornais abordavam temas políticos e cotidianos, as rádios seguiam sua programação habitual, o comércio encerrava o expediente ao fim da tarde. Não havia alerta, suspeita ou mobilização institucional.

A essa altura, a contaminação já estava estabelecida em múltiplos pontos, mas permanecia invisível como fenômeno coletivo. Manifestava-se apenas como sintomas dispersos, sem conexão aparente, enquanto o material continuava a afetar silenciosamente aqueles que haviam tido contato com ele.

No sábado, 26 de setembro, Goiânia vivia um dos fins de semana mais movimentados do ano. A cidade se preparava para receber, no domingo, uma etapa do Campeonato Mundial de Motovelocidade no Autódromo Internacional Ayrton Senna. Hotéis estavam lotados, o comércio aquecido e o fluxo de visitantes de outros estados e países aumentava a circulação nas ruas. A capital mantinha uma atmosfera de normalidade e atividade intensa.

Enquanto isso, a poucos quilômetros dali, o acidente com Césio-137 em Goiânia já não estava restrito aos focos iniciais. A contaminação avançava por meio da mobilidade cotidiana. Wagner Mota Pereira e Roberto dos Santos Alves, já bastante debilitados, continuavam a se deslocar em busca de atendimento médico. Familiares e vizinhos transitavam entre as residências da Rua 57, da Rua 26-A e da Rua 6, transportando, sem perceber, partículas do material em roupas, calçados e objetos pessoais.

Relatórios da Agência Internacional de Energia Atômica indicam que diversos focos secundários de contaminação — fora dos locais iniciais — surgiram nesse período, entre os dias 24 e 26 de setembro. A circulação ocorreu por meio de interações comuns, como visitas e compartilhamento de objetos, sem qualquer forma de contenção.

Nesse mesmo dia, ocorreu um evento relevante para a ampliação da contaminação. Conforme registros da IAEA, Kardec Sebastião dos Santos, funcionário do Ferro Velho II, retornou ao prédio abandonado do IGR, acompanhado de outra pessoa, e removeu a blindagem remanescente da cabeça do aparelho, com cerca de 300 kg. A peça foi transportada para o Ferro Velho II, localizado na Rua 6.

Embora não contivesse mais a fonte principal, essa estrutura permanecia contaminada pelo contato prévio com o Césio-137. Seu deslocamento representou uma nova frente de exposição para os envolvidos e contribuiu para ampliar a área de contaminação associada ao Ferro Velho II.

Ao mesmo tempo, a cidade recebia visitantes e mantinha sua rotina. A circulação de pessoas aumentava, assim como o potencial de contato indireto com o material. O acidente já apresentava escala urbana, mas ainda não era percebido como tal. Não havia alerta, diagnóstico ou qualquer medida de contenção.

“Dia 27 de setembro, no domingo, aconteceu em Goiânia o Grande Prêmio Brasil de Motociclismo. Na segunda, dia 28, eu tinha um compromisso em São Paulo e aí, quando anoiteceu, o Dr. Graciano, servidor da secretaria de saúde, me ligou dizendo que havia um comentário na cidade que uma Coca-Cola havia feito mal para uns moradores do Setor Aeroporto, região central da cidade. Até então eu não imaginava que pudesse ser Césio. Ninguém imaginava. Aí, dia 29, terça-feira eu cheguei de viagem, fui para a secretaria e recebi um telefonema do físico Walter Mendes, dizendo que ele tinha um contador Geiger e que ele achava que esse material que estava fazendo mal para as pessoas era radioativo. Eu confiei nele e imediatamente liguei para o Dr. Júlio Rosental. Fui ao Governador Santillo, disse que não era certeza mas uma forte suspeita de que esse pessoal estava com algum material radioativo, por causa dessa medição feita por ele. O marco zero do acidente, porém, é o momento em que a cápsula foi retirada do Instituto (Goiano de Radioterapia). Dia 29, nós estamos considerando como o dia em que a Secretaria de Estado da Saúde tomou conhecimento do que realmente estava acontecendo, mas o dia do acidente é o dia em que eles abriram o equipamento e retiraram a cápsula dos escombros, ou seja, é 13 de setembro”.
— Antonio Faleiros Filho

No domingo, 27 de setembro, Goiânia viveu um de seus dias mais movimentados do ano. O Autódromo Internacional Ayrton Senna estava cheio para a etapa do Campeonato Mundial de Motovelocidade. Arquibancadas ocupadas, hotéis com alta demanda, bares e restaurantes recebendo visitantes de diferentes regiões. As transmissões mostravam uma capital ativa e integrada ao circuito internacional. A cidade funcionava em ritmo elevado.

Enquanto isso, a poucos quilômetros dali, em bairros como o Setor Aeroporto e o Setor Norte Ferroviário, o Césio-137 seguia seu curso de forma silenciosa. Na casa de Ivo Alves Ferreira, na Rua 6, sua filha Leide das Neves, de seis anos, apresentava sintomas compatíveis com a exposição ocorrida dias antes: vômitos, diarreia e fraqueza progressiva. Maria Gabriela Ferreira também permanecia debilitada, com dificuldade para se alimentar e lesões cutâneas em evolução.

No ferro-velho de Devair, na Rua 26-A, a manipulação do material continuava. Funcionários como Israel Batista dos Santos e Admilson Alves de Souza seguiam na desmontagem das peças contaminadas, ampliando sua exposição sem qualquer proteção. O material ainda era exibido a curiosos, e pequenas quantidades continuavam a circular. Admilson, além de trabalhar no local, também residia em um dos cômodos nos fundos do terreno, o que ampliava o tempo de permanência em ambiente contaminado.

Relatórios da Agência Internacional de Energia Atômica e registros do inquérito indicam que, nesse mesmo dia, o sistema de saúde ainda não havia estabelecido qualquer conexão entre os casos. Wagner Mota Pereira, internado desde o dia 23, teve agravamento do quadro e foi transferido para o Hospital de Doenças Tropicais (HDT), diante da suspeita de uma condição infecciosa grave. A possibilidade de exposição à radiação não foi considerada.

Casos de vômito, diarreia e lesões cutâneas já se acumulavam em diferentes pontos da cidade, mas permaneciam dispersos. Cada família buscava atendimento de forma independente, em unidades distintas, sem integração entre os registros.

Esse contraste define o dia 27 de setembro como um dos momentos mais críticos da cronologia. De um lado, uma cidade em pleno funcionamento, recebendo visitantes e mantendo sua rotina. De outro, um conjunto crescente de casos que já ultrapassava a normalidade, mas ainda não era reconhecido como um evento único. O acidente já havia produzido efeitos graves, mas permanecia sem diagnóstico, sem alerta e sem visibilidade pública.

O dia 28 de setembro marca o ponto de virada do acidente. Após dias de adoecimento progressivo e sem diagnóstico, Maria Gabriela Ferreira tomou a decisão que alteraria o rumo dos acontecimentos. Convencida de que o material brilhante guardado em casa estava associado aos sintomas que atingiam sua família, decidiu agir.

Acompanhada por Geraldo Guilherme da Silva, funcionário do ferro-velho, dirigiu-se ao Ferro Velho III, na Rua P-19, no Setor dos Funcionários, para onde parte dos fragmentos havia sido levada. Lá, solicitou que o material fosse reunido em um saco plástico. A peça, sem qualquer tipo de proteção adequada, foi transportada de forma improvisada. Em seguida, utilizaram um ônibus urbano e atravessaram a cidade até a Vigilância Sanitária, localizada na Rua 16-A, no Setor Aeroporto. Em parte do trajeto, já a pé, Geraldo carregou o volume nos ombros, mantendo contato direto com o material.

Há registros de que, inicialmente, houve tentativa de negociar a peça em outro ferro-velho, sem sucesso, o que contribuiu para a decisão de levá-la às autoridades sanitárias.

O deslocamento ocorreu em meio à rotina normal da cidade. Passageiros, pedestres e funcionários públicos não tinham qualquer indicação de que um material radioativo estava sendo transportado como um objeto comum.

Ao chegar à Vigilância Sanitária, o material foi entregue ao médico Paulo Roberto Monteiro. Segundo registros, Maria Gabriela afirmou que aquilo estava causando o adoecimento de sua família. Sem reconhecimento imediato da natureza do risco, o saco foi deixado no pátio externo do prédio. Pessoas se aproximaram, observaram e tiveram contato com o material, ainda sem qualquer proteção.

As consequências imediatas da exposição foram registradas posteriormente. Geraldo Guilherme da Silva apresentou lesão no ombro correspondente ao ponto de contato durante o transporte, com dose corporal significativa. Paulo Roberto Monteiro também recebeu exposição, embora com menor nível de incorporação, uma vez que o material permaneceu contido no saco.

Esse episódio rompeu o ciclo de desconhecimento. Pela primeira vez, o material deixou o ambiente doméstico e entrou no campo institucional. Ainda não havia diagnóstico. Mas, a partir desse momento, o acidente deixou de ser invisível.

Cápsula de Césio-137 colocada sobre uma cadeira na Vigilância Sanitária, após ser levada por Maria Gabriela Ferreira, acompanhada por Pedro Cândido de Abreu.

Na manhã de 29 de setembro, o físico Walter Mendes Ferreira foi acionado para avaliar um objeto suspeito que havia sido deixado no pátio da Vigilância Sanitária na noite anterior. Ele se encontrava em Goiânia circunstancialmente e foi contatado por um conhecido ligado ao Departamento de Meio Ambiente do Estado.

Para realizar a verificação, dirigiu-se à sede da Nuclebrás e obteve um cintilômetro, um detector de radiação de alta sensibilidade, utilizado principalmente em atividades de prospecção geológica, como a identificação de urânio.

A médica Maria Paula Curado, voluntária no atendimento às vítimas, e o físico Walter Mendes, da CNEN, receberam Medalha “Pedro Ludovico Teixeira” (Foto: Ana Paula Freire/CNEN)

Ao se aproximar do prédio da Vigilância Sanitária, ainda a algumas dezenas de metros de distância, Walter ligou o aparelho. A leitura atingiu imediatamente o limite superior da escala, independentemente da direção em que o detector era apontado. Diante do resultado, considerou inicialmente a possibilidade de falha no equipamento. Retornou à Nuclebrás e obteve um segundo cintilômetro. A nova medição apresentou o mesmo comportamento.

Não se tratava de erro. Havia, naquele local, uma fonte radioativa ativa com níveis elevados de radiação, capazes de representar risco significativo mesmo a distância.

A reação foi imediata. Walter interveio antes que o Corpo de Bombeiros, já acionado, executasse a ação inicialmente cogitada de remover o material sem avaliação técnica adequada. Em vez disso, orientou o isolamento do local e a evacuação dos ocupantes do prédio. A Polícia Militar foi acionada para controlar o acesso.

Na sequência, Walter e o médico Paulo Roberto Monteiro dirigiram-se ao ferro-velho da Rua 26-A, de onde o material havia se originado. As medições confirmaram níveis elevados de radiação em diferentes pontos, evidenciando contaminação disseminada. Após contato com Devair Alves Ferreira, foi necessário convencê-lo a retirar sua família e os vizinhos da área.

Por volta das 13 horas, Walter apresentou a situação ao Secretário de Saúde do Estado, Antônio Faleiros. Diante da natureza incomum do relato, houve dificuldade inicial em compreender a gravidade do quadro. Com insistência, conseguiu a mobilização dos recursos estaduais.

Às 15 horas, o Diretor do Departamento de Instalações Nucleares da CNEN, José de Júlio Rozental, foi contatado no Rio de Janeiro. Após análise preliminar, indicou como hipótese mais provável a presença de uma fonte de Césio-137 proveniente de equipamento de radioterapia do Instituto Goiano de Radioterapia. Como responsável por emergências nucleares, orientou a identificação da fonte e iniciou os procedimentos para o envio de uma equipe técnica a Goiânia.

A partir desse momento, os casos até então dispersos — vômitos, diarreia e lesões cutâneas observados em diferentes regiões da cidade — passaram a ser compreendidos como manifestações de um mesmo evento. O acidente, que havia evoluído por dias sem reconhecimento, entrou no campo institucional e passou a mobilizar resposta coordenada.

Fragmento da cápsula de Césio-137 é acondicionado em tubo com concreto para contenção da radiação e manuseio controlado.
Retirada para transporte da Vigilância Sanitária até local provisório do tubo concretado contendo principal fragmento da cápsula de Césio-137.

Na madrugada de 30 de setembro, por volta de 0h30, os primeiros técnicos da CNEN chegaram a Goiânia. A equipe era liderada por José de Júlio Rozental, Diretor do Departamento de Instalações Nucleares, que assumiu a coordenação da resposta. Ele estava acompanhado por técnicos do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN), de São Paulo, que trouxeram equipamentos de monitoração mais adequados do que o cintilômetro utilizado inicialmente.

A primeira etapa foi confirmar a localização da fonte. No prédio abandonado do IGR, não foram encontrados níveis relevantes de contaminação, indicando que o material havia sido removido anteriormente. Na Vigilância Sanitária, a equipe localizou os fragmentos dentro de um saco, ainda no pátio. As medições indicaram níveis elevados de radiação, compatíveis com uma fonte remanescente significativa, embora já reduzida em relação ao material original, o que sugeria dispersão prévia pela cidade.

Equipes técnicas iniciam a resposta radiológica após a identificação do Césio-137.

Operação de contenção da fonte

Ainda na manhã do dia 30, foi realizada uma ação emergencial para isolamento do material. Utilizando um guindaste, posicionou-se um tubo de concreto sobre o local onde o saco estava, criando uma barreira física provisória. Em seguida, o interior foi preenchido com concreto, reduzindo significativamente os níveis de radiação na área e permitindo o controle inicial do ponto de origem.

Centralização dos pacientes

Ao longo do dia, os pacientes em estado mais grave, até então distribuídos entre diferentes unidades de saúde, foram transferidos para o Hospital Geral de Goiânia (HGG), então vinculado ao INAMPS. Um andar foi isolado e adaptado para atendimento sob controle radiológico. A equipe da CNEN iniciou a triagem com base em critérios clínicos, incluindo o intervalo entre exposição e início dos vômitos, a intensidade das lesões cutâneas, sinais de epilação e o estado geral do paciente.

Triagem em massa

Fora do ambiente hospitalar, o Estádio Olímpico Pedro Ludovico foi convertido em centro de triagem. Pessoas com possível exposição foram direcionadas para avaliação. Ao longo das semanas seguintes, mais de 100 mil indivíduos passariam por esse processo. Já no primeiro dia, foram identificados casos com potencial de contaminação, que passaram a ser monitorados separadamente.

Reconhecimento público

Na noite de 30 de setembro, as primeiras reportagens sobre o acidente foram exibidas em rede nacional. A partir desse momento, o evento deixou de ser apenas uma emergência técnica e passou a integrar o debate público. A cidade mudou de ritmo, e a dimensão do ocorrido começou a ser compreendida em escala mais ampla.

Ainda assim, havia uma incerteza central: a extensão dos efeitos já causados pela exposição.

Testagem em massa da população no Estádio Olímpico de Goiânia.

Na quinta-feira, 1º de outubro, o acidente deixou definitivamente de ser um problema local. A imprensa nacional passou a tratá-lo como uma emergência radiológica de grande escala. Termos como radiação, contaminação e risco à saúde começaram a ocupar as manchetes. Goiânia tornou-se o centro da atenção do país.

Enquanto a cobertura se ampliava, a resposta técnica e médica ganhava organização. Na área de saúde pública, a médica sanitarista Maria Paula Fleury Curado atuava na estruturação da triagem e na definição dos fluxos de atendimento aos contaminados.

A decisão clínica

No Hospital Geral de Goiânia (HGG), equipes da CNEN e profissionais locais reavaliaram, ao longo da madrugada, os pacientes concentrados no terceiro andar. Os critérios clínicos eram objetivos, e os resultados indicavam gravidade elevada em parte dos casos. Tornou-se evidente que alguns pacientes necessitavam de um nível de suporte que não estava disponível na cidade.

Foi então definida a transferência imediata de seis pacientes para o Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro, referência nacional para atendimento em acidentes radiológicos.

Os pacientes transferidos foram:

  • Wagner Mota Pereira
  • Roberto dos Santos Alves
  • Devair Alves Ferreira
  • Ivo Alves Ferreira
  • Ernesto Fabiano
  • Leide das Neves Ferreira

Critérios de seleção

A decisão seguiu parâmetros clínicos utilizados em casos de exposição à radiação ionizante, incluindo:

  • intervalo entre exposição e início dos vômitos
  • intensidade das lesões cutâneas
  • presença de epilação
  • estado geral e capacidade funcional

Por volta das 9 horas, uma aeronave da Força Aérea Brasileira decolou de Goiânia com os seis pacientes, chegando ao Rio de Janeiro no início da tarde. A partir desse momento, o atendimento passou a ocorrer em duas frentes:

  • Rio de Janeiro, com os casos mais graves sob cuidado especializado
  • Goiânia, com monitoramento contínuo dos demais pacientes

Ampliação do impacto social

Enquanto a transferência ocorria, a mobilização na cidade aumentava. O Estádio Olímpico concentrava filas crescentes para triagem. Pessoas sem contato direto buscavam avaliação por precaução. Objetos e ambientes passaram a ser vistos com desconfiança. O impacto já não era apenas clínico, mas também social.

Esse momento marca uma mudança definitiva na cronologia. O acidente não começou quando se tornou notícia. Ele já havia evoluído por dias, de forma silenciosa, em ambientes domésticos e espaços de trabalho. O que se altera agora é sua condição: deixa de ser invisível e passa a ser reconhecido, nomeado e enfrentado por meio de resposta institucional organizada.

Dados oficiais do acidente com Césio-137

Os dados oficiais da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), compilados entre 30 de setembro e 20 de dezembro de 1987, ajudam a dimensionar a escala do acidente.

112.800
pessoas monitoradas no Estádio Olímpico e em postos de triagem.
1.000
pessoas classificadas como irradiadas externamente. Dessas, 97% receberam doses entre 0,2 e 10 mSv.
249
pessoas contaminadas externa e internamente, com contato direto ou incorporação do Césio-137.
49
pessoas internadas para descontaminação e tratamento.
21
pacientes exigiram atendimento intensivo, com isolamento, transfusões, antibióticos e Azul da Prússia.
10
vítimas apresentaram estado extremamente grave. Quatro não resistiram.

Irradiação externa significa exposição à radiação emitida pela fonte ou por superfícies contaminadas, sem incorporação direta do material radioativo ao organismo.

Na sexta-feira, 2 de outubro, a resposta ao acidente entrou em uma fase de expansão operacional. Com os seis pacientes mais graves já transferidos para o Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro, as equipes da CNEN puderam redirecionar esforços para uma tarefa igualmente crítica: mapear a extensão da contaminação na cidade.

O foco deixou de ser exclusivamente clínico. Passou a ser territorial.

Equipes percorreram diferentes regiões de Goiânia seguindo a trajetória do material. O mapeamento passou a obedecer a uma lógica clara: cada pessoa contaminada era tratada como um ponto de referência, e cada objeto com o qual teve contato, como um potencial vetor. Ferro-velhos, residências, locais de trabalho, veículos e pontos de circulação urbana passaram a ser monitorados.

Dados do rastreamento

De acordo com o Boletim Técnico CNEN nº 08:

  • cerca de 1.100 pessoas foram monitoradas no Estádio Olímpico nesse dia
  • equipes realizaram verificações em 15 locais a partir de denúncias da população
  • novos focos de contaminação foram identificados, incluindo:
    • área de aterro da COMURG com níveis elevados de radiação na superfície
    • residências no Setor Aeroporto
    • uma unidade industrial onde cargas contaminadas foram interceptadas antes de deixarem o estado

Consolidação da metodologia

Relatórios da Agência Internacional de Energia Atômica indicam que, nesse momento, já haviam sido identificados múltiplos focos principais de contaminação. A metodologia de resposta começou a se consolidar: isolar, medir, recolher e transportar.

O controle passou a abranger não apenas pessoas, mas também materiais potencialmente contaminados — roupas, móveis, ferramentas, entulho e solo. A operação deixava de ser reativa e passava a funcionar como um sistema organizado, com procedimentos definidos para monitoramento e contenção.

Impacto social

Paralelamente, o comportamento da cidade se alterava. A noção de contaminação passou a integrar o cotidiano. Áreas começaram a ser evitadas, objetos passaram a ser vistos com desconfiança e atividades comerciais sofreram retração em regiões associadas ao acidente.

O evento deixava de ser apenas um problema de saúde pública. Passava a influenciar a circulação urbana, as relações sociais e a percepção coletiva de risco.

Técnicos da CNEN e militares retiram lixo radioativo das áreas contaminadas com Césio-137.

No sábado, 3 de outubro, o acidente já havia se consolidado como um caso de repercussão nacional. O noticiário destacava a gravidade dos pacientes internados no Rio de Janeiro e mencionava explicitamente o risco de morte nos casos mais severos. Goiânia passou a ser acompanhada com atenção crescente em todo o país.

Segunda transferência de pacientes

Apesar da comoção, a resposta médica avançava. Após a transferência inicial de seis pacientes em 1º de outubro, outros quatro tiveram agravamento clínico nas 48 horas seguintes. A equipe do Hospital Geral de Goiânia (HGG) indicou a transferência para o Hospital Naval Marcílio Dias, referência nacional no tratamento de exposição radiológica.

Foram transferidos:

  • Maria Gabriela Ferreira
  • Kardec Sebastião dos Santos
  • Luiza Odete Mota dos Santos
  • Admilson Alves de Souza

Com isso, o hospital no Rio de Janeiro passou a concentrar dez pacientes em estado grave, enquanto o HGG permaneceu responsável pelos casos de menor complexidade. A operação passou a exigir gestão hospitalar especializada, com divisão clara de responsabilidades entre as unidades.

Impacto nos familiares

Paralelamente, os efeitos do acidente atingiam os familiares isolados em Goiânia. No Centro de Recuperação Feminina da FEBEM, no Jardim Europa, estavam pessoas afastadas do convívio cotidiano por risco de contaminação. Entre elas, Lourdes das Neves Ferreira, mãe de Leide.

Separada da filha, submetida a tratamento intensivo, Lourdes apresentou um quadro de sofrimento psíquico significativo, associado ao isolamento e à incerteza sobre a evolução clínica. Recebeu acompanhamento psicológico e medicação para controle de ansiedade. Esse contexto contribuiu para percepções externas imprecisas sobre seu estado, frequentemente descrito de forma simplificada.

Consolidação da resposta técnica

Enquanto isso, a atuação da CNEN em Goiânia ganhava estrutura. Foram instituídos relatórios diários e divisão das equipes por áreas: monitoração ambiental, controle de rejeitos, atendimento à população e descontaminação.

O Estádio Olímpico já havia recebido um volume elevado de pessoas para triagem. Os procedimentos começaram a ser padronizados: coleta de materiais contaminados, transporte seguro, critérios de medição e liberação de áreas. A resposta deixava de ser reativa e passava a operar de forma sistematizada.

Mudança de percepção

Também se transformava a interpretação do acidente. O que inicialmente parecia um evento isolado passou a ser compreendido como resultado de falhas sucessivas: abandono de material radioativo, lacunas na fiscalização, atraso na identificação do risco e limitações no reconhecimento clínico inicial.

Goiânia deixou de ser apenas o cenário de um episódio incomum. Tornou-se referência para a discussão sobre controle de materiais radioativos no país. O acidente deixava de ser apenas um acontecimento e passava a ser entendido como um alerta de alcance nacional.

Técnicos da CNEN.

No domingo, 4 de outubro, enquanto Goiânia ainda assimilava o impacto das primeiras manchetes nacionais, uma nova frente de trabalho foi iniciada sobre a cidade. Um helicóptero da Força Aérea Brasileira, equipado com espectrômetros gama e detectores de iodeto de sódio, deu início ao mapeamento aerorradiométrico da área urbana. O objetivo era confirmar se havia focos de contaminação ainda não identificados pelo rastreamento terrestre.

Operando a baixa altitude e em velocidade controlada, os sensores percorreram a malha urbana de Goiânia. As medições indicaram que os principais focos já identificados concentravam os níveis mais elevados de radiação. Foi detectado apenas um novo ponto com níveis acima do fundo natural, de alcance localizado e passível de controle.

No mesmo dia, o acidente passou a integrar formalmente o sistema internacional de resposta. A Comissão Nacional de Energia Nuclear notificou a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), acionando mecanismos de cooperação previstos para emergências radiológicas. A partir desse momento, iniciou-se a mobilização de especialistas internacionais, que passaram a colaborar na avaliação da contaminação e no tratamento das vítimas.

Tabela – Locais envolvidos no acidente radioativo (CNEN 04/10/87) – (Césio-137)

PontoEndereçoBairroEspécie
01Inst. Goiano RadioterapiaS. CentralLocal inicial da fonte
02Rua 57, 68S. CentralResidência
03Rua 26-A Q Z L 25S. AeroportoFerro velho
04Rua 15-A Q 25 L 25S. AeroportoResidência
05Rua 17-A Q 70-AS. AeroportoResidência
06Rua 6 Qd Q L 18S. Norte FerroviárioFerro velho
07Rua P-19 Q 92 L 04S. FuncionáriosFerro velho
08Cidade de GoiásS. CentralCasa comercial
09Rua 16-A, 792S. AeroportoVigilância sanitária
10Rua 63, 179 fundosS. CentralResidência
11Rua P-19 Q P-92 L 01S. FuncionáriosPasseio público
12Rua P-19 Q 92 L 02S. FuncionáriosFerro velho
13Rua P-19 Q P-91 L 01S. FuncionáriosPasseio público
14Rua 16-A Q 24-A L-06S. AeroportoPasseio público
15Rua 16-A Q 25-A L-06S. AeroportoPasseio público
16Rua 69-A, 125-A fundosS. Norte FerroviárioResidência
176ª Avenida Q 44 L 22S. UniversitárioGráfica
18CODJS. AeroportoÓrgão público
19Colégio AgostinianoS. AeroportoColégio
20Educandário LogosóficoS. AeroportoColégio
21Rua Diamante, 21 L 12S. Sta GenovevaCopel
22Rua 5 Q F L 16S. Mal Rondon
23Rua 5 Q F L 19S. Mal RondonFerro velho
24Escola 5 de JulhoS. CentralColégio
25Rua 23 Q 71, 641S. CentralHospital Santa Catarina
26Rua 5 Q 17 L 14S. OestePronto socorro queimaduras
27Rua 802 C / Rua 801V. Oswaldo RosaTerreno baldio
28Rua Anchieta Q 21 L 24S. RodoviárioFerro velho
29SENAC e arredoresS. AeroportoÓrgão público
30Hospital das ClínicasS. UniversitárioHospital
31Rua 80 com Rua 59S. CentralPrédio
32Rua 15-A Q 70-BS. Aeroporto
33Rua 8, 38S. Norte Ferroviário
34Rua 68 S/NS. CentralHospital
35Rua 04 Qd 3 L 14V. Sta Helena
36Rua 10 S/NS. Oeste
37Av. da Divisa Q 48 L 07V. Sta HelenaPasseio público
38Av. T-2 Q 35 L 5S. BuenoDepósito Prefeitura
39Rua 74 esq. Rua 57S. CentralFarmácia Santo Onofre
40Rua 15-A c/ IndependênciaS. AeroportoTropical Pneus
41Rua 5 esq. c/ Rua 8S. Norte FerroviárioResidência
42Av. B Q 7 L 6Vila MoraesFerro velho
43Rua 7 Q H L 11S. Marechal Rondon
44Rua 59 Q 121 L 20S. CentralResidência
45Rua 8 Q 5 L 14, 79S. Norte Ferroviário
46Rua C-25 Q-7 L 20Jardim AméricaDepósito de papel
47Rua 231 Esq. C/ 232S. UniversitárioFUNDEC
48Rua 30-A c/ Av. Capim PubaS. AeroportoGráfica
49Av. Goiás Q-128S. CentralMini Box
50Rua 55 Q-120 L-26S. CentralResidência
51Rua 261 Esq. C/ 118 AS. UniversitárioFEBEM
52Rua 10S. UniversitárioImprensa UFG
53Rua C-179 Q 443 L 13Jardim AméricaResidência

Na segunda-feira, 5 de outubro, uma das decisões mais complexas da crise foi tomada. Após dias de busca por alternativas e pressão política crescente, a CNEN, em conjunto com o Governo de Goiás, definiu o local provisório para armazenamento dos rejeitos radioativos: uma área de 16 alqueires pertencente ao Banco do Estado de Goiás (BEG), no município de Abadia de Goiás, a cerca de 20 quilômetros da capital.

A escolha não foi apenas técnica. Envolvia percepção pública, resistência local e a necessidade de dar uma resposta rápida a um problema que já não podia mais esperar.

O governador Henrique Santillo declarou que o depósito teria caráter provisório, buscando conter a reação da população. Ainda assim, a decisão gerou preocupação e mobilização entre moradores da região, que passaram a questionar os riscos e a permanência do material.

Enquanto isso, no Estádio Olímpico, o fluxo de pessoas em busca de monitoração permanecia elevado. Dezenas de milhares já haviam passado pelo processo de triagem. A percepção de risco se ampliava rapidamente, acompanhando a divulgação das informações sobre o acidente.

Na terça-feira, 6 de outubro, os primeiros especialistas estrangeiros desembarcaram no Brasil. Entre eles estavam o argentino Juan Carlos Jimenez, o norte-americano Lush Baugh e o alemão Gunther Drexler, que passaram a atuar junto às equipes médicas no Hospital Naval Marcílio Dias e no Hospital Geral de Goiânia. A presença desses profissionais contribuiu para o aprimoramento técnico do atendimento e reforçou a aderência dos protocolos adotados aos padrões internacionais.

No campo jurídico, a Superintendência Regional da Polícia Federal em Goiás assumiu a condução do inquérito para apurar as responsabilidades pelo acidente. Foi instaurado o Inquérito Policial nº 157/SR/DPF/GO, sob coordenação do superintendente Francisco de Barros Lima.

A investigação passou a se concentrar em dois eixos principais: as circunstâncias do abandono do equipamento de radioterapia pelo Instituto Goiano de Radioterapia e as possíveis falhas nos mecanismos de fiscalização e controle por parte dos órgãos competentes.

(Imagem: material informativo distribuído pelo Governo de Goiás)

Na quarta-feira, 7 de outubro, a Polícia Federal iniciou a coleta formal de depoimentos. Foram ouvidos os proprietários do Instituto Goiano de Radioterapia — Carlos de Figueiredo Bezerril, Orlando Alves Teixeira e Criseide Castro Dourado. As linhas de defesa apresentadas concentraram-se em dois pontos: a existência de disputa judicial durante a desocupação do imóvel e a atribuição da responsabilidade de fiscalização à Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN).

Paralelamente, as equipes de descontaminação avançavam sobre os focos secundários. Na COPEL, fábrica de papel que havia recebido material proveniente do ferro-velho de Ivo, cargas foram interceptadas antes de serem enviadas para outros estados. O rastreamento já ultrapassava os limites de Goiânia, alcançando municípios como Anápolis e Aparecida de Goiânia, para onde haviam sido levados, inadvertidamente, roupas e objetos contaminados.

O levantamento aerorradiométrico foi concluído e divulgado em 8 de outubro. Os mapas produzidos a partir dos sobrevoos indicavam a concentração da contaminação nos focos já identificados, incluindo as regiões das ruas 57, 26-A, 6, 15-A, 17-A e P-19. Fora desses perímetros, os níveis de radiação correspondiam ao fundo natural.

Esse resultado teve importância estratégica. Permitiu às autoridades afirmar, com base técnica, que o risco estava restrito às áreas isoladas. A mensagem passou a ser reiterada em entrevistas coletivas: fora dessas regiões, não havia risco para a população.

Ainda assim, a informação técnica não foi suficiente para conter outro tipo de efeito. A percepção de risco já havia ultrapassado os limites geográficos da contaminação e começava a se transformar em estigma associado à cidade.

Além do mapeamento aéreo, as equipes da CNEN iniciaram o monitoramento terrestre da malha viária. Detectores de radiação foram instalados em veículos que percorreram, nas semanas seguintes, milhares de quilômetros de ruas e avenidas da capital. O objetivo era identificar possíveis rastros de contaminação associados ao deslocamento de pessoas e veículos.

Nesse mesmo período, o Hospital Geral de Goiânia (HGG) passou a contar com um sistema improvisado de monitoração corporal, montado a partir de detectores de iodeto de sódio trazidos do Rio de Janeiro. Esse equipamento permitia estimar a quantidade de Césio-137 incorporada pelos pacientes, oferecendo um parâmetro adicional para o acompanhamento clínico e para a utilização do Azul da Prússia (Radiogardase), empregado para acelerar a eliminação do radionuclídeo do organismo.

Na sexta-feira, 10 de outubro, chegaram ao Brasil dois especialistas com ampla experiência em acidentes radiológicos: o hematologista soviético George Selidovkin, que havia atuado no tratamento de vítimas de Chernobyl, e o norte-americano Robert Ricks, diretor do Radiation Emergency Assistance Center/Training Site (REAC/TS).

A participação desses profissionais contribuiu para a avaliação dos casos mais graves e para o alinhamento das condutas clínicas com experiências internacionais. A partir de dados observados em acidentes anteriores, especialmente em Chernobyl, foi possível estabelecer referências mais claras sobre a relação entre dose absorvida e prognóstico.

Nesse contexto, estimativas indicavam que pacientes expostos a doses elevadas apresentavam risco significativamente aumentado de evolução desfavorável. No caso de Leide das Neves Ferreira, as avaliações clínicas e dosimétricas apontavam para um nível de exposição compatível com os quadros mais severos já descritos na literatura.

Após dias de críticas pela ausência de sua liderança no local, o presidente da CNEN, Rex Nazaré Alves, chegou a Goiânia na manhã de 11 de outubro. Em entrevista coletiva, defendeu a atuação do órgão, afirmando que as atribuições legais haviam sido cumpridas e que a responsabilidade pela comunicação da desativação da fonte caberia ao Instituto Goiano de Radioterapia.

A declaração gerou reação imediata. Setores da imprensa e autoridades locais questionaram a posição, apontando falhas no sistema de fiscalização e controle. No dia seguinte, o governador Henrique Santillo criticou publicamente a atuação da CNEN e cobrou um cronograma claro para a retirada dos rejeitos do perímetro urbano.

Na segunda-feira, 13 de outubro, o presidente José Sarney esteve em Goiânia. Acompanhado do governador Henrique Santillo e de ministros, visitou a área isolada da Rua 57 e pacientes internados no Hospital Geral de Goiânia (HGG).

Em declaração pública, fez uma distinção importante do ponto de vista técnico: tratava-se de um acidente radiológico, e não de um acidente nuclear como o de Chernobyl. A afirmação buscava contextualizar a natureza do evento e seus riscos.

O presidente anunciou que o governo federal arcaria com as despesas decorrentes da emergência enfrentada pelo Estado de Goiás. Também indicou a Serra do Cachimbo, no Pará, como opção para a destinação definitiva dos rejeitos radioativos.

Na manhã de 14 de outubro, foi confirmada uma das consequências mais graves da exposição ao Césio-137. Roberto dos Santos Alves, que havia participado da remoção da peça do prédio abandonado do IGR, foi submetido à amputação do antebraço direito no Hospital Naval Marcílio Dias.

O procedimento decorreu de necrose tecidual avançada, associada à exposição localizada à radiação ionizante. Durante a manipulação do equipamento, Roberto manteve contato direto com a região de maior emissão, o que resultou em dano celular progressivo e irreversível no membro afetado.

A informação teve ampla repercussão e contribuiu para aumentar a preocupação em relação à evolução clínica dos demais pacientes, especialmente daqueles que apresentavam lesões semelhantes nas extremidades.

Enquanto o atendimento médico avançava no Rio de Janeiro, uma disputa política se consolidava em Brasília. O presidente José Sarney encaminhou ao Congresso Nacional um projeto de lei que atribuía aos Estados a responsabilidade pela destinação final de rejeitos radioativos gerados em seus territórios.

A proposta provocou forte reação em Goiás. O governador Henrique Santillo contestou publicamente a medida, defendendo que a responsabilidade deveria permanecer no âmbito federal, dada a natureza do acidente e os mecanismos de controle envolvidos.

No Congresso, a bancada goiana articulou a apresentação de um substitutivo. A proposta alternativa mantinha a responsabilidade da União sobre o destino final dos rejeitos e previa um prazo para a retirada do material do território goiano.

No domingo, 18 de outubro, a tensão acumulada em torno da área destinada ao depósito provisório de rejeitos resultou em protestos em Abadia de Goiás e regiões próximas. Moradores mobilizaram tratores, caminhões e outros equipamentos para bloquear a BR-060, em oposição à instalação do local de armazenamento.

O movimento expressava preocupação com os riscos associados à presença dos rejeitos e com a possibilidade de permanência prolongada do material na região. O bloqueio se estendeu por horas e foi encerrado após negociação conduzida por representantes políticos, incluindo o senador Irapuan Costa Júnior.

Durante as tratativas, o governo assumiu o compromisso de avançar nos estudos para definição de um destino definitivo para os rejeitos, fora do Estado.

Apesar dos protestos, as obras no depósito provisório de Abadia de Goiás seguiram em andamento. Na quarta-feira, 21 de outubro, teve início a concretagem da primeira plataforma de armazenamento. O projeto previa a construção de nove estruturas, com dimensões padronizadas, destinadas a acomodar tambores e caixas contendo os rejeitos radioativos gerados durante as operações de descontaminação.

Paralelamente, as equipes da CNEN mantinham o trabalho de remoção de material contaminado nos principais focos. Na Rua 57, elementos do ambiente que haviam absorvido radionuclídeos — incluindo árvores com evidência de contaminação radicular — foram removidos e tratados como rejeitos.

O processo evidenciava o nível de penetração da contaminação, que já não se limitava a superfícies ou objetos, mas alcançava também componentes do próprio ambiente urbano.

Na sexta-feira, 23 de outubro de 1987, foi registrada uma das perdas mais significativas associadas ao acidente.

Às 11h55, Maria Gabriela Ferreira, de 37 anos, faleceu no Hospital Naval Marcílio Dias. Foi ela quem, ao associar o material ao adoecimento de sua família, levou os fragmentos à Vigilância Sanitária, contribuindo diretamente para a identificação do problema.

As avaliações clínicas indicavam exposição elevada à radiação. O óbito esteve relacionado às complicações sistêmicas da Síndrome Aguda da Radiação, incluindo comprometimento hematológico grave e hemorragias generalizadas.

Horas depois, às 18h10, foi registrado o falecimento de Leide das Neves Ferreira, de seis anos.

A exposição ocorreu por ingestão de material contaminado nos dias anteriores. As avaliações indicavam um dos quadros mais severos entre os pacientes acompanhados. A evolução clínica foi marcada por comprometimento sistêmico progressivo, com lesões graves no trato gastrointestinal, alterações hematológicas e falência de múltiplos órgãos.

As duas mortes, confirmadas no mesmo dia, tiveram ampla repercussão nacional. O governador Henrique Santillo decretou luto oficial de três dias no Estado de Goiás.

Lourdes das Neves Ferreira segurando a foto de sua filha Leide das Neves Ferreira.

O dia 24 de outubro, data do aniversário de Goiânia, teve sua programação oficial cancelada. Estavam previstos eventos públicos, que foram substituídos por uma cerimônia de caráter religioso e institucional.

Em seu lugar, foi realizado um culto ecumênico na Praça Cívica. O Arcebispo de Goiânia, Dom Antônio Ribeiro de Oliveira, conduziu a celebração, que reuniu grande número de participantes. O deputado Ulysses Guimarães também esteve presente, manifestando solidariedade à população.

A cidade, que dias antes mantinha sua rotina e atividades públicas, passou a adotar um comportamento mais contido, refletindo o impacto do acidente e das perdas recentes.

Os corpos de Maria Gabriela Ferreira e Leide das Neves Ferreira foram transportados para Goiânia em aeronave da Força Aérea Brasileira. A remoção ocorreu com protocolos de segurança, em urnas especiais com blindagem adequada, e o destino foi o Cemitério Parque.

O momento do sepultamento, que deveria ocorrer sob condições controladas, foi marcado por tensão. Moradores da região, preocupados com possíveis riscos de contaminação, manifestaram resistência à realização do enterro. Houve tentativas de impedir o acesso ao local, o que exigiu a atuação da Polícia Militar para garantir a realização do procedimento.

As sepulturas foram preparadas com medidas adicionais de contenção, incluindo estruturas de concreto e monitoramento posterior por meio de dosimetria. Essas providências tinham como objetivo assegurar que não houvesse liberação de radiação para o ambiente.

Autoridades técnicas presentes no local buscaram esclarecer a população sobre a segurança do procedimento, reforçando que não havia risco de contaminação nas condições estabelecidas. Ainda assim, a reação demonstrava o nível de apreensão já instalado na cidade.

Na manhã de 27 de outubro, o Hospital Naval Marcílio Dias confirmou mais um óbito associado ao acidente. Israel Batista dos Santos, de 22 anos, funcionário do ferro-velho envolvido na manipulação do material, faleceu às 6h40.

Ele havia participado diretamente da remoção da blindagem da fonte, com exposição significativa à radiação ionizante. Nas horas que antecederam o óbito, apresentou agravamento progressivo do quadro clínico, com comprometimento sistêmico, instabilidade cardiovascular e complicações respiratórias.

A confirmação do óbito reforçou o cenário de luto e preocupação já presente na cidade, à medida que a evolução dos casos mais graves se tornava conhecida.

Menos de 30 horas depois, ao meio-dia de 28 de outubro, foi confirmado mais um óbito associado ao acidente. Admilson Alves de Souza, de 18 anos, funcionário do ferro-velho envolvido na manipulação do material, faleceu no Hospital Naval Marcílio Dias.

Admilson havia sido exposto diretamente durante as atividades de desmontagem. Seu quadro evoluiu com febre persistente e infecção generalizada, compatíveis com comprometimento grave da medula óssea, característico das fases mais avançadas da Síndrome Aguda da Radiação.

Com essa confirmação, completou-se o conjunto de óbitos diretamente relacionados à exposição aguda ao Césio-137. O acidente revelou, de forma concreta, as consequências da combinação entre falhas no controle institucional, ausência de informação adequada e exposição inadvertida a um material de alto risco.

Na sexta-feira, 30 de outubro, os corpos de Israel Batista dos Santos e Admilson Alves de Souza foram trasladados para Goiânia e sepultados no Cemitério Parque, ao lado das duas primeiras vítimas. Desta vez, o procedimento ocorreu sem resistência por parte da população.

O momento foi marcado por um ambiente de recolhimento. Familiares acompanharam o sepultamento em silêncio, após semanas de exposição contínua à crise. A percepção coletiva já havia se modificado em relação aos primeiros dias, quando predominava a incerteza sobre os riscos.

As sepulturas, preparadas com medidas adicionais de contenção e monitoramento, passaram a integrar o conjunto de referências materiais do acidente. Mais do que locais de enterro, tornaram-se um registro permanente das consequências de uma falha sistêmica na gestão de material radioativo.

Novembro começou sob pressão de tempo. Com o início das chuvas no cerrado, aumentava o risco de mobilização da contaminação residual. A primeira quinzena foi dedicada à conclusão da estrutura do depósito provisório em Abadia de Goiás e à organização da operação de descontaminação em escala urbana.

No dia 4 de novembro, chegaram a Goiânia militares da Escola de Instrução Especializada do Exército (EsIE), vindos do Rio de Janeiro. Com treinamento em defesa química, biológica e nuclear, foram integrados às equipes da CNEN para atuar nos pontos de maior risco. As condições de trabalho exigiam protocolos rigorosos: permanência limitada nas áreas contaminadas, seguida de procedimentos de descontaminação e períodos de recuperação.

Paralelamente, a construtora Andrade Gutierrez foi mobilizada para apoiar a remoção de solo contaminado, utilizando equipamentos pesados como retroescavadeiras e caminhões. A operação envolvia a retirada controlada de material, com posterior acondicionamento para transporte seguro.

Também foram incorporados recursos tecnológicos para apoio às equipes. Equipamentos adaptados para detecção remota permitiam a identificação de áreas com maior intensidade de radiação, reduzindo a exposição direta dos operadores.

A segunda quinzena de novembro concentrou uma das etapas mais intensas da operação: a demolição de residências com níveis de contaminação incompatíveis com qualquer tentativa de descontaminação.

Entre os imóveis demolidos estavam:

  • a casa de Roberto dos Santos Alves, na Rua 57, onde ocorreu a perfuração inicial da cápsula
  • a casa de Ivo Alves Ferreira, na Rua 6, associada a um dos episódios mais graves de exposição
  • o barracão do ferro-velho de Devair, na Rua 26-A, onde o material foi amplamente manipulado e disperso

A demolição seguiu protocolos rigorosos. Todos os materiais — estruturas, revestimentos e camadas de solo — foram tratados como rejeitos radioativos. As operações eram acompanhadas por técnicos da CNEN, com monitoração contínua. O material removido era acondicionado em tambores e caixas metálicas, lacrado e transportado em comboios para o depósito provisório em Abadia de Goiás.

Dimensão da operação (até 30 de novembro)

  • cerca de 3.500 m³ de rejeitos gerados
  • aproximadamente 3.800 tambores de 200 litros utilizados
  • cerca de 1.400 caixas metálicas de grande porte
  • centenas de viagens de transporte entre os focos e o depósito
  • mais de 500 trabalhadores envolvidos diretamente na operação

No dia 21 de novembro, a Rua 57 foi liberada após os trabalhos de descontaminação. A área passou por remoção completa das camadas superficiais, seguida de recomposição com material limpo e cobertura controlada.

A liberação do local marcou o encerramento de uma das frentes mais críticas da operação e consolidou a transformação física do espaço onde o acidente teve início.

Dezembro marcou a etapa final da operação. A CNEN estabeleceu como objetivo concluir a descontaminação dos principais focos ainda ativos antes do período de fim de ano, buscando permitir o retorno gradual das famílias evacuadas e a normalização parcial das atividades na cidade.

As equipes trabalharam em regime intensivo, com turnos prolongados e sob condições climáticas adversas. As chuvas dificultavam a operação, especialmente na remoção de solo, exigindo maior controle para evitar dispersão de material contaminado. O acompanhamento dos profissionais era rigoroso, com monitoramento contínuo das doses individuais.

No dia 19 de dezembro, o último foco relevante — o Ferro Velho II, na Rua 6 — foi considerado descontaminado. A área passou por cobertura com solo limpo e recebeu proteção adicional em concreto nos pontos mais críticos.

Em 21 de dezembro, a CNEN comunicou a conclusão das ações nos focos de maior risco. A partir desse momento, foi autorizada a desmobilização gradual das áreas isoladas. Parte das famílias evacuadas pôde retornar às suas residências, enquanto aquelas cujos imóveis haviam sido demolidos passaram a depender de medidas compensatórias e reassentamento.

Depósitos de lixo radioativo em Abadia de Goiás/GO

O que deveria ser um depósito provisório em Abadia de Goiás, com prazo máximo de dois anos para remoção, acabou se tornando definitivo. As negociações para transferir os rejeitos para a Serra do Cachimbo, no Pará, ou para qualquer outro local fora de Goiás, fracassaram diante da resistência política de outros Estados e da ausência de uma política nacional clara para rejeitos radioativos.

Em 5 de junho de 1997, quase dez anos após o acidente, foi inaugurado oficialmente o Depósito de Rejeitos Radioativos de Abadia de Goiás. O complexo, administrado pelo Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro-Oeste (CRCN-CO) , unidade da CNEN, abriga:

Volume de rejeitos radioativos gerados

3.500 m³
de rejeitos sólidos gerados durante a operação de descontaminação.
4.200
tambores de 200 litros utilizados para acondicionamento.
1.400
caixas metálicas de grande porte (5 toneladas cada).
10
contêineres com capacidade de 32 m³ cada.
6 conjuntos especiais
embalagens de concreto (VBAs) contendo os materiais de maior atividade, incluindo os remanescentes da cápsula de Césio-137.

Esses materiais foram acondicionados com múltiplas camadas de contenção para garantir o isolamento da radiação e evitar qualquer dispersão no ambiente.

O depósito foi construído sobre uma plataforma de concreto de 30 centímetros de espessura, com canais de drenagem que permitem a coleta e análise de toda a água da chuva que escoa pelo local. Dosímetros e poços de monitoramento do lençol freático foram instalados no perímetro. A cada três meses, técnicos da CNEN coletam amostras de solo, vegetação, água superficial e subterrânea. Nunca foi detectado qualquer vazamento de material radioativo.

Infográfico com o mapeamento do Depósito de Rejeitos Radioativos de Abadia de Goiás.

A vida útil estimada do depósito é de 300 anos — o tempo necessário para que a radioatividade do Césio-137 (meia-vida de 30 anos) decaia a níveis insignificantes.

O Inquérito Policial nº 157/SR/DPF/GO foi instaurado em 7 de outubro de 1987 e concluído em 20 de novembro do mesmo ano. O relatório final, com mais de 1.100 páginas, indiciou sete pessoas. Em 30 de novembro de 1987, o Ministério Público Federal (MPF) ofereceu denúncia formal contra cinco delas.

Os denunciados e os fundamentos da acusação:

  1. Carlos de Figueiredo Bezerril – médico e sócio-proprietário do IGR.
  2. Orlando Alves Teixeira – médico e sócio-proprietário do IGR.
  3. Criseide de Castro Dourado – médica e sócia-proprietária do IGR.
  4. Flamarion Barbosa Goulart – físico responsável pela proteção radiológica do IGR.
  5. Amaurillo Monteiro de Oliveira – ex-proprietário do IGR e proprietário do imóvel abandonado.

A denúncia apontou que:

  • O IGR não comunicou à CNEN a desativação da fonte de Césio-137, violando a Resolução CNEN-09/84.
  • O equipamento foi abandonado em um prédio sem vigilância, sem portas e sem sinalização de risco.
  • Amaurillo Monteiro de Oliveira autorizou a retirada de telhas, janelas e outros materiais do prédio, expondo ainda mais a fonte e facilitando o acesso de terceiros.
  • Os denunciados tinham pleno conhecimento da periculosidade do material e das exigências técnicas para sua guarda e destinação adequada.

Os crimes imputados:

  • Homicídio culposo (art. 121, §3º do Código Penal) pelas quatro mortes.
  • Lesão corporal culposa (art. 129, §6º) pelas 16 vítimas que sofreram queimaduras e outros danos físicos.

Em 29 de julho de 1992, o juiz federal Wilson Alves de Souza, da 3ª Vara da Justiça Federal em Goiás, proferiu a sentença de primeira instância:

  • Amaurillo Monteiro de Oliveira foi absolvido. O juiz entendeu que ele não integrava mais o IGR à época do abandono definitivo do prédio e que sua conduta (retirada de materiais de construção) não tinha nexo causal direto com o acidente.
  • Carlos Bezerril, Orlando Teixeira, Criseide Dourado e Flamarion Goulart foram condenados a:
    • Três anos de detenção pela prática de quatro homicídios culposos e 16 lesões corporais culposas.
    • Suspensão do exercício profissional por três anos (cassação temporária do registro para atuar com radiação).

A pena privativa de liberdade foi substituída por penas restritivas de direitos:

  • Prestação de serviços à comunidade.
  • Multa pecuniária.

Nenhum dos condenados cumpriu um único dia de prisão em regime fechado.

A defesa recorreu ao Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) . Em 16 de setembro de 1995, os desembargadores alteraram a sentença:

  • Reconheceram a prescrição das acusações de lesão corporal culposa.
  • Amaurillo, antes absolvido, foi condenado por homicídio culposo a um ano e dois meses de detenção em regime aberto.
  • Os demais réus tiveram as penas majoradas para três anos e dois meses, com determinação de cumprimento em regime aberto.

Em dezembro de 1996, o Supremo Tribunal Federal (STF) restabeleceu a substituição das penas de prisão por medidas alternativas, com base no princípio da vedação à reformatio in pejus (impossibilidade de agravar a pena quando apenas a defesa recorre).

O desfecho final veio em 1997: os condenados foram beneficiados por um indulto presidencial assinado por Fernando Henrique Cardoso, que extinguiu definitivamente as punições.

Ninguém cumpriu pena de prisão. Ninguém perdeu definitivamente o direito de exercer a medicina ou a física hospitalar.

Wagner Mota Pereira e Roberto dos Santos Alves chegaram a ser inicialmente acusados de furto do equipamento. No entanto, a Justiça reconheceu que, como leigos, eles não tinham capacidade de compreender o risco do objeto encontrado em um local abandonado e sem qualquer sinalização de perigo. Ambos foram formalmente tratados como vítimas do acidente, não como criminosos.

Roberto perdeu o braço direito. Wagner sobreviveu com sequelas permanentes nas mãos. Ambos receberam pensões vitalícias do governo federal.

No campo cível, a Justiça Federal condenou solidariamente, em sentença do ano 2000:

  • A CNEN, ao pagamento de R$ 1 milhão por danos difusos, por falha no dever de fiscalização.
  • A União Federal, ao pagamento de R$ 2 milhões por omissão na vigilância sanitária.
  • O Estado de Goiás, ao pagamento de R$ 100 mil e à garantia de pensões vitalícias às vítimas.
  • O IPASGO, ao pagamento de R$ 100 mil.

A decisão mais importante, porém, foi a garantia de assistência médica, psicológica e odontológica vitalícia e integral às vítimas e seus descendentes — um direito que segue sendo exercido até hoje.

A ausência de punições mais severas expôs uma fragilidade do ordenamento jurídico brasileiro à época: não havia previsão legal específica para o crime de abandono de substância radioativa. A Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/98), que passou a tipificar de forma mais abrangente condutas lesivas ao meio ambiente, só foi sancionada dez anos após o acidente.

O acidente com Césio-137 em Goiânia escancarou uma verdade incômoda: o Brasil tinha normas técnicas para o manejo de material radioativo, mas não tinha leis penais à altura do risco que esse material representava.

Quando os holofotes se apagaram e as equipes de descontaminação deixaram Goiânia, a tragédia do Césio-137 entrou em uma nova fase: a da contabilidade silenciosa das sequelas. As quatro mortes ocorridas em outubro de 1987 foram apenas a ponta mais visível de um iceberg de sofrimento que se estenderia por décadas.

Devair Alves Ferreira, o dono do ferro-velho que se encantou com o brilho azul da cápsula e a levou para dentro de casa, sobreviveu à fase aguda da Síndrome da Radiação. Sua dose estimada foi de 7,0 Gy — a mais alta entre os sobreviventes. Os médicos acreditam que ele resistiu porque, ao contrário das vítimas fatais, sua exposição foi fracionada: ele passava longos períodos fora de casa, trabalhando ou em bares, o que deu ao seu organismo pequenas janelas de recuperação celular.

A sobrevivência física, no entanto, não o poupou do colapso psicológico. Devair carregou pelo resto da vida o peso de ter sido o vetor involuntário da contaminação que matou sua esposa, Maria Gabriela, e sua sobrinha, a pequena Leide das Neves. Afundado em depressão e alcoolismo, ele faleceu em 12 de maio de 1994, aos 43 anos, vítima de cirrose hepática. Sua certidão de óbito não menciona “radiação”, mas todos que acompanharam sua trajetória sabem que o Césio-137 o matou — apenas de forma mais lenta e cruel.

A Associação das Vítimas do Césio-137 contesta os números oficiais. Segundo a entidade, até setembro de 2012 — quando o acidente completou 25 anos — mais de seis mil pessoas haviam sido atingidas de alguma forma pela radiação, e pelo menos 60 já haviam morrido em decorrência de complicações atribuídas à exposição ao Césio-137.

O poder público — nas esferas federal, estadual e municipal — refuta esses números. A divergência se deve, em grande parte, à dificuldade de estabelecer um nexo causal definitivo entre a exposição à radiação e o desenvolvimento de doenças como câncer, leucemia, problemas cardiovasculares e distúrbios hormonais décadas depois. Em termos epidemiológicos, é quase impossível afirmar com certeza que um determinado caso de câncer em um ex-contaminado foi causado pela tragédia do Césio-137 e não por outros fatores ambientais, genéticos ou comportamentais.

Em entrevista concedida ao Jornal Opção (edição nº 1849, de 12 a 18 de dezembro de 2010), o médico Zacharias Calil, então superintendente da Suleide (entidade de assistência às vítimas), ofereceu um testemunho clínico contundente sobre os efeitos de longo prazo da exposição:

“Pude comprovar, clinicamente, que determinadas doenças apareceram mais cedo. Um exemplo é a hipertensão arterial, a osteoporose e a hipertrofia de próstata. Uma doença que poderia aparecer por volta dos 50 ou 60 anos foi antecipada aos 30 ou 35.”

A declaração de Calil aponta para um fenômeno conhecido na radiobiologia como “envelhecimento precoce” ou “antecipação de morbidades” : a radiação ionizante acelera o processo de degradação celular e tecidual, fazendo com que doenças típicas da terceira idade se manifestem décadas antes do esperado.

O lote onde funcionava o ferro-velho de Devair Alves Ferreira, na Rua 26-A, Setor Aeroporto — o epicentro físico da tragédia — não pertencia a Devair. O terreno era, e segundo registros imobiliários ainda é, propriedade do grupo liderado pelo empresário paulista Lourival Louza Júnior.

Radicado em Goiânia e detentor do título honorífico de Cidadão Goiano, Louza foi um dos pioneiros que, nas décadas de expansão da capital, adquiriram grandes extensões de terra apostando na valorização imobiliária. Sua carteira de imóveis incluía, além do lote do Setor Aeroporto, a vasta área na divisa com o Jardim Goiás onde, anos mais tarde, seria erguido o Shopping Flamboyant — um dos maiores e mais sofisticados centros comerciais do Centro-Oeste brasileiro.

Ao contrário do que o senso comum poderia supor, o ferro-velho funcionava como um ponto de comércio informal em um terreno privado, provavelmente alugado ou simplesmente ocupado com a tolerância tácita do proprietário — uma prática comum em áreas urbanas ainda não consolidadas.

Ao longo das décadas que se seguiram ao acidente, o grupo empresarial de Lourival Louza Júnior optou por não se pronunciar publicamente sobre a ligação histórica do imóvel com a tragédia do Césio-137. O silêncio corporativo contrasta com a memória coletiva da cidade, que jamais esquecerá que foi naquele lote — hoje limpo, silencioso e aparentemente comum — que o brilho azul da morte fascinou e destruiu tantas vidas.

O que essa reconstrução deixa evidente é que o acidente com Césio-137 em Goiânia não foi um evento repentino. Foi um processo — iniciado no abandono de 1985, acelerado pela curiosidade humana em setembro de 1987 e consolidado pela demora institucional em reconhecer o perigo. Por 16 dias, o material circulou livremente por ruas, casas e corpos sem que nenhum alarme soasse. Quando o caso finalmente ganhou nome, equipes e manchetes, a maior parte do dano já estava feita.

Goiânia continuou funcionando porque não sabia o que estava enfrentando. E essa é a lição mais dura da tragédia: o perigo mais letal é, muitas vezes, aquele que não conseguimos ver. A tragédia do Césio-137 matou quatro pessoas diretamente. Mas seu legado de sofrimento se estende por gerações — nas vítimas que ainda frequentam o Centro de Assistência ao Radioacidentado (C.A.R.A.) , nos 3.500 metros cúbicos de rejeitos que repousam sob o concreto de Abadia de Goiás, e na memória de uma cidade que aprendeu, da pior forma possível, que o brilho azul da curiosidade pode ser o prenúncio da morte.

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Documentos Oficiais:

  1. INTERNATIONAL ATOMIC ENERGY AGENCY. The Radiological Accident in Goiânia. Vienna: IAEA, 1988. (STI/PUB/815).
  2. BRASIL. Comissão Nacional de Energia Nuclear. Relatório do Acidente Radiológico de Goiânia. Rio de Janeiro: CNEN, 1988.
  3. BRASIL. Superintendência Regional do Departamento de Polícia Federal em Goiás. *Inquérito Policial nº 157/SR/DPF/GO* (Relatório Final, 20 de novembro de 1987). Arquivo Nacional, Fundo DPF.
  4. BRASIL. Justiça Federal – 3ª Vara da Seção Judiciária de Goiás. *Processo nº 92.00.00000-0* (Sentença de 29 de julho de 1992).

Artigos Acadêmicos:

  1. POZZOBON, Thayse Cristine. Responsabilidade penal da pessoa jurídica aplicada ao incidente radioativo de Goiânia. Revista Justiça e Sistema Criminal, Curitiba, v. 10, n. 18, p. 183-200, jan./jun. 2018.
  2. POZZETTI, Valmir César; GOMES, Wagner Robério Barros. Trinta anos do césio-137: trajetória legal da política nacional brasileira na prevenção de acidentes radioativos. Revista de Direito Ambiental e Socioambientalismo, Salvador, v. 4, n. 1, p. 132-148, jan./jun. 2018.
  3. SCHUMANN, Berta; BERWIG, Juliane Altmann. O desastre radiológico do Césio-137: lições após 30 anos da sua ocorrência. Direito, Estado e Sociedade, Rio de Janeiro, n. 54, p. 62-86, jan./jun. 2019.
  4. OKUNO, Emico. Efeitos biológicos das radiações ionizantes: acidente radiológico de Goiânia. Estudos Avançados, São Paulo, v. 27, n. 77, p. 185-200, 2013.

Reportagens e Fontes Jornalísticas:

  1. CONDENAÇÕES por Césio-137 foram brandas; veja repercussões jurídicas. Migalhas, 13 set. 2017. Disponível em: https://www.migalhas.com.br/quentes/452570/condenacoes-por-cesio-137-foram-brandas-veja-repercussoes-juridicas. Acesso em: 10 abr. 2026.
  2. O POPULAR. Edições de setembro a dezembro de 1987. Acervo digitalizado.
  3. DIÁRIO DA MANHÃ. Edições de setembro a dezembro de 1987. Acervo digitalizado.
  4. Revista Césio 25 anos. https://goias.gov.br/saude/wp-content/uploads/sites/34/2023/11/revista-cesio-25-anos.pdf